A reação, imediata, ao
teor da prova do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), realizado no dia 25 de
outubro, nos oferece uma oportunidade à reflexão sobre a educação no Brasil. As
críticas à qualidade da educação brasileira são comuns, do mesmo modo que é
rotineiro assistirmos comparações dos problemas brasileiros com questões
semelhantes de países mais desenvolvidos. O Enem, de 2015, oferece razões suficientes
para uma reflexão particularizada do problema educacional brasileiro por pelo
menos duas razões: a primeira pode ser observada na tensão que antecedeu ao
exame e na forma pedagógica, aplicada às aulas, caracterizadas por shows de
professores, em auditórios superlotados. A segunda razão pode ser colhida
depois da prova, na reação, quase (?) unânime ao conteúdo da avaliação.
Estes dois pontos nos
conduz a outros: 1) a maneira como os estudantes estudam; 2) a maneira como os
professores ensinam; e 3) ao tipo de conhecimento que tem sido valorizado na
prática da educação. Por que existe esta cortina entre o Enem e o ensino
prestado pelo sistema educacional?
Os críticos não
pouparam adjetivos e motejos, imediatamente ao Exame, os quais, no calor da
emoção, vieram completamente desprovidos de alguma análise sensata, por mais
simples que se pudesse esperar de um estudante, minimamente, comprometido com o
que faz.
Mas, por outro prisma,
esta reação colabora para um entendimento mais amplo e sistemático das outras
crises que ocupam o debate brasileiro, neste momento em que o país parece ter
perdido o equilíbrio mental. As palavras “doutrinação” e “feminismo” vêm sendo
usadas, indiscriminadamente, sem o mínimo pudor por professores e estudantes,
em mais uma discussão sem base, ou algum critério que possa levar a alguma
compreensão razoável do problema encontrado no Enem. Esta mesma falta de entendimento,
pode ser observada em outras discussões, em que assuntos como corrupção na Petrobrás,
Lava Jato, corrupção no governo, na Câmara, no Senado e a crise econômica, são
todos discutidos dentro do mesmo “caldeirão”.
O Brasil vem pagando um
preço alto em nome da palavra “democracia”: jornalistas de televisão a serviço
de governos estrangeiros, jornalistas aliados a partidos políticos e envolvidos
com empresários corruptos, ministros do Supremo Tribunal Federal declarando
suas posições partidárias. Os presidentes da Câmara e do Senado sendo
investigados, e até agora, sem nenhuma base, o presidente da Câmara, já
denunciado no Supremo, tenta arrastar o país para o caos absoluto. Enquanto
isto, muitos brasileiros declaram publicamente seus atestados de demência ao
pedir a volta da ditadura. E, ainda, como se não bastasse tudo isto, vem-se
tratando de ressuscitar a defesa do armamento de civis.
Todas as crises
brasileiras podem ser analisadas a partir de um mesmo ponto: a educação. Mesmo
que existam grandes profissionais no país, grandes universidades, grandes
mestres, pesquisadores renomados, grandes juristas, todos são frutos de um
sistema deformado.
A educação brasileira
tem raízes no positivismo francês de August Comte (1798-1857). Os principais
pontos do pensamento comtiano gravitam em torno da completa reforma intelectual
do homem. Segundo ele, assim, seria possível uma mudança radical no pensamento
e no comportamento em sociedade. Para tanto, considerava, o papel da física
social e o coroamento da ciência, como ordenadores da sociedade positiva, o que
implicava na substituição do estado teológico pelo estado metafísico. Daí, com
o coroamento da ciência, se estabeleceria o estado positivo com desenvolvimento
político, social, ordem e progresso.
No Brasil, as ideias de
Comte influenciaram, em especial, a educação técnica-militar e a Constituição
Republicana, chegando ao ponto de se tornar lema da bandeira nacional. Mas, ao
contrário da física social, aqui permaneceu a ordem hierárquica, com uma
preocupação excessiva com a ordem social, sem realçar a natureza dos conflitos.
Desse modo, o Brasil desenvolveu uma educação, não como um processo de
socialização, mas, tecnicista, para resolver problemas.
Para outro francês, o
sociólogo Émile Durkheim (1858-1917), diferentes de outras espécies, o ser
humano não possui o conhecimento necessário à vida em sociedade, e a educação
incute outra natureza, a qual o afasta da natureza egoísta, contemplando
valores morais e as normas da sociedade. Uma vez incorporados os valores e as
normas, os indivíduos reproduziriam isso na sociedade, o que tornaria a vida em
grupo harmônica e coesa. No pensamento de Durkheim, a diferenciação e o individualismo
precisavam do equilíbrio de uma força superior, a qual ele denominou
“solidariedade orgânica”, para definir as leis que ligam os indivíduos. Por
defender o respeito às regras para o funcionamento da sociedade, ele foi
rotulado de funcionalista.
A constituição
histórica brasileira - onde o capitalismo começou às avessas, pois a economia escravagista
era incompatível com a existência de um mercado - é vista como prejudicial, do
ponto de vista da solidariedade orgânica, e como causa da anomia e falta de coesão
social. O familismo, o personalismo, o patrimonialismo e o autoritarismo
acentuam a falência das nossas principais instituições: o Estado, a família e a
escola.
Nas sociedades modernas,
por exemplo, as leis são valorizadas, estão acima dos interesses individuais, e
os problemas são resolvidos no âmbito da justiça, independente da posição
social. No Brasil, o “jeitinho”, não é exceção, e sim regra, e isso deturpa a
lei. Essa dificuldade que o brasileiro tem de obedecer, às leis, resulta em
formas paradoxais de “navegação social”, e alimenta o desejo de alcançar o objetivo
com o menor esforço possível, com o uso do “jeitinho”. Daí decorre a valorização
da vida de “grande senhor”, o gosto, e a vontade, de ser grande personalidade,
para ter prestígio. Como resultado disso, construímos uma sociedade de
indivíduos com vontade de mandar, e disposição para obedecer aos mandões aos
quais estão aliados.
Outro ponto a ser
reconhecido é que o processo educacional brasileiro é desigual e excludente: 10)
porque temos uma educação tecnicista – para o trabalho manual – destinada aos
pobres; 20) porque a
nossa educação humanística – para o trabalho intelectual – está reservada aos
ricos; 30) a inacessibilidade da população rural à educação;
e 40) a tendência de arremedo, de copiar técnicas pedagógicas
de fora, incondizentes com a realidade brasileira.
Pressionado por
organizações internacionais para promover a inclusão, o país vem multiplicando
o número de vagas nas escolas e nas universidades, mas sem a devida conexão com
a realidade. A ampliação do acesso à educação, no Brasil, não está necessariamente
vinculada à qualidade da educação - basta observar a qualidade dos ingressos
nas universidades e os predicados dos egressos. Não obstante, a mercadorização,
indiscriminada, do ensino está tornando, cada vez maior, a quantidade de instituições
sem compromisso com a educação, voltadas apenas para o lucro. O resultado
disso é uma sociedade com o monopólio das posições de mando em apenas uma
classe social.
Este sistema alimenta o
processo educacional com pouco gosto pelo saber, pela leitura e pelo valor do
conhecimento, por ele mesmo, sem um fim específico em si: é comum o uso de “jeitinho”
para obter certificado.
Antes de ter acesso à
educação de qualidade, trabalho e salário, que lhes permitam a dignidade, os
indivíduos são transformados em consumidores. Assim, valores como cidadania,
democracia e solidariedade, são substituídos pela participação não-social, mas
no universo do consumo, onde o “ter” prevalece ao “ser”, ou o “parecer ter”,
pois essa passa a ser a chave para o reconhecimento social. Numa sociedade
assim, o diploma é o que importa, porque depois se dá um “jeitinho”.
Aquela imagem de
igualdade, veiculada nas propagandas que induzem ao consumo, produz a ilusão de
que pessoas de realidades diferentes possuem necessidades semelhantes,
estimuladas pelo consumo. Muitas vezes, as pessoas não percebem que estão sendo
condicionadas.
Neste sentido, o grande
desafio, da educação brasileira, é o de estimular o educando, para despertar a
consciência do que é o conhecimento, de que ele nos ensina a ver o mundo e nos
liberta das ditaduras do consumo, da beleza e da imagem, que tanto mascaram a
verdadeira condição humana.
Diante disso, como
subverter a lógica alienante, a padronização cultural e a subordinação social
mascarada no discurso de liberdade de escolha, como propaganda de consumo?
Para o socialista Karl
Marx (1818-1883), o elemento básico para pensar a sociedade é o trabalho, porque
ao transformar a natureza que o cerca, o ser humano desenvolve o pensamento e a
sua consciência, o que transforma a sua própria natureza e o humaniza. Já o
capitalista Adam Smith (1723-1790), examina criticamente o pensamento moral, e
sugere que a consciência surge das relações sociais e explica a origem da
capacidade da humanidade em formar juízos morais, apesar da natural tendência
dos homens ao auto interesse, mas que a consciência moral deve ser fiscalizada
pelo Estado, a fim de evitar que o egoísmo – ou o “jeitinho” - prevaleça sobre
as regras.