sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A carroça na frente dos bois: a crise do Enem e a crise do Brasil



A reação, imediata, ao teor da prova do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), realizado no dia 25 de outubro, nos oferece uma oportunidade à reflexão sobre a educação no Brasil. As críticas à qualidade da educação brasileira são comuns, do mesmo modo que é rotineiro assistirmos comparações dos problemas brasileiros com questões semelhantes de países mais desenvolvidos. O Enem, de 2015, oferece razões suficientes para uma reflexão particularizada do problema educacional brasileiro por pelo menos duas razões: a primeira pode ser observada na tensão que antecedeu ao exame e na forma pedagógica, aplicada às aulas, caracterizadas por shows de professores, em auditórios superlotados. A segunda razão pode ser colhida depois da prova, na reação, quase (?) unânime ao conteúdo da avaliação.
Estes dois pontos nos conduz a outros: 1) a maneira como os estudantes estudam; 2) a maneira como os professores ensinam; e 3) ao tipo de conhecimento que tem sido valorizado na prática da educação. Por que existe esta cortina entre o Enem e o ensino prestado pelo sistema educacional?
Os críticos não pouparam adjetivos e motejos, imediatamente ao Exame, os quais, no calor da emoção, vieram completamente desprovidos de alguma análise sensata, por mais simples que se pudesse esperar de um estudante, minimamente, comprometido com o que faz.
Mas, por outro prisma, esta reação colabora para um entendimento mais amplo e sistemático das outras crises que ocupam o debate brasileiro, neste momento em que o país parece ter perdido o equilíbrio mental. As palavras “doutrinação” e “feminismo” vêm sendo usadas, indiscriminadamente, sem o mínimo pudor por professores e estudantes, em mais uma discussão sem base, ou algum critério que possa levar a alguma compreensão razoável do problema encontrado no Enem. Esta mesma falta de entendimento, pode ser observada em outras discussões, em que assuntos como corrupção na Petrobrás, Lava Jato, corrupção no governo, na Câmara, no Senado e a crise econômica, são todos discutidos dentro do mesmo “caldeirão”.
O Brasil vem pagando um preço alto em nome da palavra “democracia”: jornalistas de televisão a serviço de governos estrangeiros, jornalistas aliados a partidos políticos e envolvidos com empresários corruptos, ministros do Supremo Tribunal Federal declarando suas posições partidárias. Os presidentes da Câmara e do Senado sendo investigados, e até agora, sem nenhuma base, o presidente da Câmara, já denunciado no Supremo, tenta arrastar o país para o caos absoluto. Enquanto isto, muitos brasileiros declaram publicamente seus atestados de demência ao pedir a volta da ditadura. E, ainda, como se não bastasse tudo isto, vem-se tratando de ressuscitar a defesa do armamento de civis.
Todas as crises brasileiras podem ser analisadas a partir de um mesmo ponto: a educação. Mesmo que existam grandes profissionais no país, grandes universidades, grandes mestres, pesquisadores renomados, grandes juristas, todos são frutos de um sistema deformado.
A educação brasileira tem raízes no positivismo francês de August Comte (1798-1857). Os principais pontos do pensamento comtiano gravitam em torno da completa reforma intelectual do homem. Segundo ele, assim, seria possível uma mudança radical no pensamento e no comportamento em sociedade. Para tanto, considerava, o papel da física social e o coroamento da ciência, como ordenadores da sociedade positiva, o que implicava na substituição do estado teológico pelo estado metafísico. Daí, com o coroamento da ciência, se estabeleceria o estado positivo com desenvolvimento político, social, ordem e progresso.
No Brasil, as ideias de Comte influenciaram, em especial, a educação técnica-militar e a Constituição Republicana, chegando ao ponto de se tornar lema da bandeira nacional. Mas, ao contrário da física social, aqui permaneceu a ordem hierárquica, com uma preocupação excessiva com a ordem social, sem realçar a natureza dos conflitos. Desse modo, o Brasil desenvolveu uma educação, não como um processo de socialização, mas, tecnicista, para resolver problemas.
Para outro francês, o sociólogo Émile Durkheim (1858-1917), diferentes de outras espécies, o ser humano não possui o conhecimento necessário à vida em sociedade, e a educação incute outra natureza, a qual o afasta da natureza egoísta, contemplando valores morais e as normas da sociedade. Uma vez incorporados os valores e as normas, os indivíduos reproduziriam isso na sociedade, o que tornaria a vida em grupo harmônica e coesa. No pensamento de Durkheim, a diferenciação e o individualismo precisavam do equilíbrio de uma força superior, a qual ele denominou “solidariedade orgânica”, para definir as leis que ligam os indivíduos. Por defender o respeito às regras para o funcionamento da sociedade, ele foi rotulado de funcionalista.
A constituição histórica brasileira - onde o capitalismo começou às avessas, pois a economia escravagista era incompatível com a existência de um mercado - é vista como prejudicial, do ponto de vista da solidariedade orgânica, e como causa da anomia e falta de coesão social. O familismo, o personalismo, o patrimonialismo e o autoritarismo acentuam a falência das nossas principais instituições: o Estado, a família e a escola.
Nas sociedades modernas, por exemplo, as leis são valorizadas, estão acima dos interesses individuais, e os problemas são resolvidos no âmbito da justiça, independente da posição social. No Brasil, o “jeitinho”, não é exceção, e sim regra, e isso deturpa a lei. Essa dificuldade que o brasileiro tem de obedecer, às leis, resulta em formas paradoxais de “navegação social”, e alimenta o desejo de alcançar o objetivo com o menor esforço possível, com o uso do “jeitinho”. Daí decorre a valorização da vida de “grande senhor”, o gosto, e a vontade, de ser grande personalidade, para ter prestígio. Como resultado disso, construímos uma sociedade de indivíduos com vontade de mandar, e disposição para obedecer aos mandões aos quais estão aliados.
Outro ponto a ser reconhecido é que o processo educacional brasileiro é desigual e excludente: 10) porque temos uma educação tecnicista – para o trabalho manual – destinada aos pobres;  20) porque a nossa educação humanística – para o trabalho intelectual – está reservada aos ricos; 30) a inacessibilidade da população rural à educação; e 40) a tendência de arremedo, de copiar técnicas pedagógicas de fora, incondizentes com a realidade brasileira.
Pressionado por organizações internacionais para promover a inclusão, o país vem multiplicando o número de vagas nas escolas e nas universidades, mas sem a devida conexão com a realidade. A ampliação do acesso à educação, no Brasil, não está necessariamente vinculada à qualidade da educação - basta observar a qualidade dos ingressos nas universidades e os predicados dos egressos. Não obstante, a mercadorização, indiscriminada, do ensino está tornando, cada vez maior, a quantidade de instituições sem compromisso com a educação, voltadas apenas para o lucro.   O resultado disso é uma sociedade com o monopólio das posições de mando em apenas uma classe social.
Este sistema alimenta o processo educacional com pouco gosto pelo saber, pela leitura e pelo valor do conhecimento, por ele mesmo, sem um fim específico em si: é comum o uso de “jeitinho” para obter certificado.
Antes de ter acesso à educação de qualidade, trabalho e salário, que lhes permitam a dignidade, os indivíduos são transformados em consumidores. Assim, valores como cidadania, democracia e solidariedade, são substituídos pela participação não-social, mas no universo do consumo, onde o “ter” prevalece ao “ser”, ou o “parecer ter”, pois essa passa a ser a chave para o reconhecimento social. Numa sociedade assim, o diploma é o que importa, porque depois se dá um “jeitinho”.
Aquela imagem de igualdade, veiculada nas propagandas que induzem ao consumo, produz a ilusão de que pessoas de realidades diferentes possuem necessidades semelhantes, estimuladas pelo consumo. Muitas vezes, as pessoas não percebem que estão sendo condicionadas.
Neste sentido, o grande desafio, da educação brasileira, é o de estimular o educando, para despertar a consciência do que é o conhecimento, de que ele nos ensina a ver o mundo e nos liberta das ditaduras do consumo, da beleza e da imagem, que tanto mascaram a verdadeira condição humana.

Diante disso, como subverter a lógica alienante, a padronização cultural e a subordinação social mascarada no discurso de liberdade de escolha, como propaganda de consumo?
Para o socialista Karl Marx (1818-1883), o elemento básico para pensar a sociedade é o trabalho, porque ao transformar a natureza que o cerca, o ser humano desenvolve o pensamento e a sua consciência, o que transforma a sua própria natureza e o humaniza. Já o capitalista Adam Smith (1723-1790), examina criticamente o pensamento moral, e sugere que a consciência surge das relações sociais e explica a origem da capacidade da humanidade em formar juízos morais, apesar da natural tendência dos homens ao auto interesse, mas que a consciência moral deve ser fiscalizada pelo Estado, a fim de evitar que o egoísmo – ou o “jeitinho” - prevaleça sobre as regras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário