Para
começar a escrever este artigo, eu me propus a buscar uma compreensão dos
pilares da política econômica do Plano Real. Porém, acomodar um assunto tão
vasto não é uma tarefa simples. Desse modo, o escrito acabou ficando mais extenso
do que previra o projeto inicial. Jarretei o que pude, mas, mesmo assim, ainda
o considero amplo, assim, para facilitar a leitura, a sua publicação será de
duas formas: uma com o texto integral e a outra dividida em blocos.
A eleição presidencial de 2014, que
reelegeu a presidenta Dilma Rousseff para o segundo mandato, foi a mais
disputada, desde a redemocratização. Ao final da votação a presidenta reeleita,
ficou com a missão de unir o país, cuja cisão foi, supostamente, exposta
durante a campanha eleitoral. No discurso de posse, do segundo mandato, Dilma
se comprometeu com a manutenção dos programas sociais e lembrou-se das
necessidades de investimento e crescimento econômico para o país se
desenvolver. Mas depois de, apenas, 22 dias no novo governo, começaram a surgir
notícias sobre os subterrâneos do esquema de corrupção envolvendo a Petrobrás,
as maiores empreiteiras do país e o Congresso Nacional. Este, por si só, seria
um bom ingrediente para corroer o entendimento político, mas, para piorar, os
indicadores de resultado da economia, como inflação, nível do produto interno
bruto (PIB), taxa de juros, gastos do governo e geração de empregos não apresentaram
sinais de otimismo no horizonte do governo roussefiano.
Antes de prosseguir, alguns pontos
devem ser considerados sobre a condução de Dilma ao cargo de presidenta. Para
eleger Dilma, em 2010, o então presidente Lula construiu uma rede de alianças
que aglutinou as mais diversas facções políticas regionais. Uma junção de
forças incomum se formou em torno da candidatura de Dilma. O que aconteceu para
provocar a erosão política da presidenta?
Ao contrário do seu antecessor, Lula,
Dilma não imprimiu uma marca de diálogo com a audição e a negociação com outros partidos, nem com os
governadores, e menos ainda, com os prefeitos. Para construir a base
governista, a opção foi pela distribuição de cargos de acordo com a adesão dos
partidos ao governo, com pouco, ou nenhum diálogo sobre os ideais de
governabilidade. Desse modo, no início do seu primeiro governo, a presidenta
perdeu a oportunidade de manter a coalisão construída por Lula, e no decurso do
seu mandato, não demonstrou a liderança necessária à consecução de ações
fundamentais para a firmação da política econômica do governo.
Quando Dilma assumiu a presidência em
2010, a economia brasileira parecia promissora, dentro de um ciclo virtuoso de
crescimento contínuo do produto interno bruto, PIB, e queda do desemprego, que
já se prolongava por oito anos, de 2002 a 2010, conforme os percentuais
demonstrados no gráfico abaixo:
Fonte:
Banco Central do Brasil
O gráfico não deixa dúvidas em relação
ao comportamento do desemprego e do PIB em cada um dos cinco governos. No
período de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), houve queda do PIB e aumento
do desemprego. A partir de 2003, até 2010, já no governo Lula, as linhas mudam
de direção, com a queda do desemprego e o aumento do PIB. Mas, no primeiro
governo de Dilma o PIB acumulou uma queda imprevista pelo governo. Lula
entregou o cargo com uma taxa de 7,6% de crescimento da economia, e quatro anos
depois, em 2014, Dilma contabilizou 0,1% de crescimento, com o desemprego
saindo de 6,7% para 4,8%.
Nota-se ainda, que no período governado
por Fernando Henrique houve queda do PIB, de 4% para 0,03%, e o aumento do
desemprego, que saltou de 0 para 12,6% em oito anos. Mas, antes de continuar é
importante abordar sobre a política econômica que deu origem, e sequência, a
estes, e a outros indicadores da economia. O primeiro ponto a ser reconhecido é
que a política econômica vigente teve seus pilares construídos em 1994, antes
do governo FHC. O segundo é: qual problema econômico levou o governo a adotar o
Plano Real?
O problema da inflação
A
inflação brasileira é um problema que remonta décadas. As causas da inflação no
Brasil estão relacionadas ao aumento dos gastos públicos durante o governo
militar e pela elevação do endividamento externo. Endividamento que teve origem
na década de 1950 e que foi agravado pela crise mundial derivada do aumento dos
preços do petróleo, na década de 1970, e pela baixa taxa de crescimento
da economia nos anos 1980.
Além disso, a política de substituição das importações – iniciada no governo Juscelino Kubitschek – fez crescer
os gastos públicos, e o "milagre econômico" entre o final dos anos
1960 e o início da década de 1970 (quando a economia brasileira cresceu à média
de 10% ao ano) foi financiado por empréstimos internacionais.
A
partir de 1973, quando a crise internacional do petróleo fez o custo do barril
subir 400% em três meses, de US$ 2,90 para US$ 11,65, a economia brasileira
passou a apresentar taxas de inflação crescentes, com baixa expansão do PIB.
Assim, o Brasil entrou na década de 1980 com quatro grandes problemas: inflação
em alta, dívida externa elevada, gasto público acima da receita e indústria
defasada. E foi este o cenário entregue ao governo pós-militar.
Antecedentes I: o governo Sarney e os Cruzados
Depois disso, no governo Sarney, de
1985 a 1990, a principal preocupação era com o descontrole da inflação. Durante a segunda metade da década de
1980, a política econômica brasileira concentrou-se nas tentativas de dominar este
problema. Assim, no segundo semestre de 1984 foram apresentadas duas propostas,
consideradas inovadoras na época, para a eliminação da inflação inercial:
a moeda indexada de Arida e Resende (1985), e o choque heterodoxo
de Lopes (1986). A primeira visava alcançar a desindexação da economia
através da introdução de uma nova moeda, indexada, que circularia paralelamente
com o cruzeiro. A segunda propunha um congelamento de preços e salários
em níveis consistentes com o status quo da distribuição de renda e a
desindexação generalizada da economia. Desse modo, um congelamento de preços foi determinado pelo
ministro da Fazenda, Francisco Dornelles.
O programa brasileiro de estabilização de 1986 promoveu uma
reforma monetária que estabeleceu o cruzado como padrão monetário nacional.
O Plano Cruzado deslocou a base do índice de preços ao
consumidor. O novo índice gerou alguns resultados que se subdividiram ao
longo de três períodos. O primeiro, que vai de março a junho de 1986, é
caracterizado por uma queda substancial da inflação e também pelos primeiros
indícios da existência de excesso de demanda na economia; o segundo, que
vai de julho a outubro de 1986, pode ser identificado pela total imobilidade do
governo ante ao agravamento da escassez de produtos e o aumento do déficit da
balança comercial; o terceiro, que vai de novembro de 1986 a junho de 1987,
ratificou o fracasso do plano Cruzado, com o retorno das altas taxas de inflação.
Em junho de 1987 foi apresentado à população o Plano Bresser que
consistia em um programa de estabilização, que incluía elementos tanto ortodoxos
quanto heterodoxos para o combate à inflação.
Os resultados deste Plano - no primeiro período, que vai de julho
a dezembro de 1987 - foram verificados em congelamento e flexibilidade do
plano, configurando o sucesso inicial e o fracasso posterior desta segunda
tentativa; e na segunda fase, que vai de janeiro a dezembro de 1988, é
caracterizado por um renascimento da ortodoxia e por uma retomada do gradualismo
no combate à inflação.
Em 1989 foi instituída uma nova política monetária, que gerou o
Cruzado novo. Foi anunciado como um programa de estabilização, contendo
elementos dos receituários ortodoxo e heterodoxo para o combate à inflação. Os
resultados deste Plano não corresponderam às expectativas do governo.
Se a
inflação se revelava como o grande problema, qual seria a sua causa? O excesso
de demanda (ou consumo) da economia, que gerava a inflação se localizava, em
certa medida, na dificuldade do setor produtivo da economia atender às
necessidades de consumo da população. Porém, as dificuldades financeiras do
governo Sarney revelaram a raiz do problema: o excesso de gastos
governamentais, em relação às receitas. Fato que obrigava o governo a
“arranjar” um meio de cobrir o rombo orçamentário.
Trocando
em miúdos, as contas do governo funcionam como as de uma pessoa ou às de uma
empresa. Uma pessoa que trabalha, recebe e administra um salário mensal, sabe
dos limites do seu orçamento, e quando este entra no vermelho o caixa exige
alguma providência. Para ambos os casos existem duas alternativas. No caso das
pessoas, uma saída é a venda de patrimônio e a outra é o endividamento. Em se
tratando do governo, a situação é um pouco diferente: o governo pode escolher
entre o endividamento, ou a fabricação de dinheiro. A primeira opção altera a
taxa de juros, e obriga o ajuste das contas, já a segunda, leva ao crescimento
constante da inflação.
Ao
fazer a segunda opção – pela emissão de dinheiro – o governo Sarney, e o seu
sucessor, Collor, atacaram o efeito, e não a causa do problema. Optaram por
acabar com a inflação, sem a necessária responsabilidade com o equilíbrio entre
gastos e tributos.
Podemos
concluir que os planos Cruzado, Bresser e Cruzado Novo não produziram mais do
que um represamento temporário da inflação, uma vez que não foram solucionados
quaisquer dos conflitos distributivos de renda ou atacados os desequilíbrios
estruturais da economia, que poderiam ser considerados focos de pressão
inflacionária a médio prazo.
Antecedentes II: o
governo Collor
A abertura da economia brasileira intensificou-se, no governo de
Fernando Collor de Mello, a partir de 1990. O esgotamento do modelo de
substituição de importações e a crescente desregulamentação dos mercados
internacionais contribuíram para uma reestruturação da economia brasileira.
Fernando Collor de Mello assumiu o governo em 1990 e, executou,
dois planos de estabilização: Planos Collor I e Collor II.
O Plano Collor I, de março de 1990, combinava confisco dos
depósitos à vista e aplicações financeiras com prefixação da correção dos
preços e salários, câmbio flutuante, tributação ampliada
sobre as aplicações financeiras e a chamada “reforma administrativa” que
implicou o fechamento de inúmeros órgãos públicos e demissão de uma grande
parte de funcionários.
O Plano Collor II, de janeiro de 1991, foi adotado em situação de
desespero devido à reaceleração da inflação. Mais uma vez lançava-se mão de
congelamento de preços e salários e da unificação das datas-bases de reajustes
salariais, além de novas medidas de redução monetária e fiscal.
Com o impeachment de Collor, assumiu seu vice Itamar franco, que
mais tarde convidaria Fernando Henrique Cardoso para o Ministério das Relações Exteriores,
o qual posteriormente, se tornou o ministro da fazenda.
As bases de
constituição do Plano Real
No ano de 1993, o então ministro, FHC, iniciou um plano econômico
de estabilização conhecido como Plano Real, concebido e executado em três
etapas.
A primeira fase do Real foi implantada com o Programa de Ação
Imediata (PAI), em 14 de junho de 1993. Para que as finanças públicas pudessem
ser equilibradas, o governo reconhecia a urgência de se efetuar uma ampla
reorganização do setor público e de suas relações com a economia privada. Para
isso o Plano previa um ajuste fiscal nas contas públicas.
Dentre os problemas com os quais o governo se defrontava,
destacava-se a falta de recursos para execução dos serviços básicos, e a incapacidade
para realizar os investimentos necessários ao desenvolvimento do país.
Neste âmbito o governo passou a tomar medidas como: combate à
sonegação, procurando assim aumentar a eficiência administrativa; restabeleceu
as relações financeiras entre o governo federal e outros níveis de governo,
buscando reduzir as transferências de recursos federais, regularizar o
pagamento de dívida vencida para com a União e impedir o retorno de estados e
municípios à condição de endividamento insolúvel. Promoveu uma reestruturação
dos bancos estaduais e federais, de modo a racionalizar suas estruturas,
tornando-os mais competitivos; e, privatizou várias estatais, na tentativa de
atingir o equilíbrio financeiro.
Porém, uma reportagem do jornal Folha de São Paulo, de 5-12-1999,
apresentou um balanço geral das privatizações federais, com importantes
informações sobre como se deu o aquele programa. Pelos cálculos, as privatizações
realizadas até 1999 teriam rendido ao governo federal US$ 56,171 bilhões,
contra um patrimônio líquido total estimado em US$ 38,305 bilhões. O volume
sobre o patrimônio líquido das empresas privatizadas foi de apenas US$ 17,865
bilhões. Já o montante de benefícios concedidos aos compradores, de diversas
formas, foi de US$ 45,168 bilhões: foram US$ 15,919 bilhões em créditos
tributários; US$ 8,958 bilhões de “moedas podres” (dívidas do governo em poder
dos bancos, como o nome diz, não tinham quase nenhum valor de mercado); e US$
20,289 bilhões em financiamentos concedidos antes e depois das privatizações.
Ao final das contas, a constatação é a de que o governo trocou U$ 83,473
bilhões (U$ 38.305 + U$ 45,168) por US$ 56,171 bilhões. Em outras palavras, o
governo doou as empresas e, ainda, pagou aos compradores U$ 27,303 bilhões.
A segunda etapa do Plano Real foi marcada pela implementação de um
índice monetário, a Unidade Real de Valor, (URV), em 27 de maio de 1994. A URV
foi utilizada para restaurar a função de unidade de conta da moeda, que havia
sido destruída pela inflação.
Na terceira, e última, etapa do Plano, foi introduzida a nova e
atual moeda – o Real – em 1º de julho de 1994.
Assim, temos que: 1) a política econômica do Real foi concebida
para combater e controlar o problema da inflação, 2) que a raiz do problema se
encontrava no déficit do governo, o que causava dependência de empréstimos e
exigia equilíbrio dos gastos. Daí que - para viabilizar a implantação do Real -
o governo iniciou um processo contínuo de endividamento crescente.
O desempenho da economia pode ser comparado ao funcionamento de um
carro, cuja velocidade é regulada pelo uso do freio e do acelerador. As
situações de baixas taxas de geração de PIB e emprego significam lentidão, e
podem ser corrigidas pelo uso do acelerador. Mas, em casos de inflação
descontrolada a receita usual é a do “pé no freio”. Resumindo: se o desemprego
estiver alto o sistema pede a expansão da economia, mas se, se tratar de
inflação a exigência é de contração econômica.
Desdobramentos
do Plano Real
Ao reduzir os gastos públicos, naquele momento inicial, o governo
diminuiu a sua participação na economia. Por outro lado, o processo de
endividamento fez nascer o Serviço de Liquidação e Custódia-Selic, o que
iniciou um processo contínuo de aumento das taxas de juros. Nestes dois
ingredientes, estava embutido o propósito de eliminar o excesso de demanda.
O raciocínio do governo ao criar o Real pode ser resumido assim:
se a inflação é causada pelo excesso de gastos, impõe-se, ao governo, ajustar
as contas para acabar com ela, para tanto, basta adotar as medidas necessárias;
1) reduzir os gastos públicos; 2)
aumentar a receita; e 3) endividamento público, enquanto as duas primeiras
ações são executadas, até atingir o objetivo maior, que seria o controle total
sobre a inflação. Com essas ações, o IPCA que fechou o ano de 1993 em 2.477,15%, caiu, no ano seguinte, para 916,46% e desceu a
22,41% em 1995.
Porém, durante a sua condução, a política econômica foi apresentando
“efeitos colaterais” em vários setores – do governo, da economia mista e do
âmbito privado. Com o fim da correção monetária, o setor financeiro foi um dos
mais atingidos pela transição de hiperinflação para inflação baixa. Assim, com
a justificativa de assegurar a solidez do sistema financeiro nacional, o
governo editou na madrugada do dia 04 de novembro de 1995, uma Medida
Provisória criando o Proer - Programa de Estímulo à Reestruturação
do Sistema Financeiro Nacional.
O Proer embutiu
um amplo pacote, dividido para atender às categorias bancárias: Proer (bancos
privados), Proes (bancos estaduais) e o Proef (bancos federais). O Programa injetou R$ 169 bilhões em 32 bancos
estaduais, e mais o Banco do Brasil, BNDES, Banco Meridional e a Caixa,
controlados pelo governo federal, além de bancos privados como o Banco
Nacional, Bamerindus e o Banco Mercantil. Apenas no paulista Banespa, o Banco
Central colocou R$ 45,5 bilhões para cobrir o rombo, sendo que deste total, R$
20 bilhões foram herança dos governos de Orestes Quércia, PMDB e de Mário
Covas, do PSDB. Na prática, os bancos estaduais funcionavam como financiadores
dos governos regionais.
O caso mais
conturbado foi o do Banespa, que sofreu uma intervenção em 1994 e passou a ser
administrado pelo BC até a sua venda para o espanhol Santander, seis anos mais
tarde. Antes, 1990, o então governador Orestes Quércia, do PMDB, declarou: “Quebrei
o Banespa, mas elegi meu sucessor”. Os rombos do Banespa e do Banerj – este, vendido ao Itaú
em 1995 – custaram R$ 45 bilhões, em recursos corrigidos para valores de
2013.
Além da injeção financeira, o Proer fez surgir o Fundo Garantidor
de Crédito, ampliou as regras para o controle do sistema financeiro, tornou o
sistema mais forte, o qual passou imune à crise de 2008. Por outro lado, evitou
os desdobramentos das consequências das quebras dos bancos Bamerindus, Nacional
e Econômico sobre o sistema financeiro como um todo. Entre todas as
instituições socorridas, estes três bancos, mais o Mercantil de Pernambuco e
outras de pequeno porte, liquidaram seus empréstimos com o Banco Central. O
resto, nem sinal.
Absolutamente nada do que o governo colocou nos bancos públicos,
jamais foi recuperado, foi dinheiro entregue para cobrir irresponsabilidades
dos governos. O impacto do Proer foi catastrófico sobre as finanças públicas,
e, somado ao programa de privatização, comprometeu os fundamentos da política
econômica. No ano de 1999, a Presidência da República, vetou 14 dispositivos da
Lei de Diretrizes Orçamentárias,
os quais requeriam ao governo a prestação de contas dos gastos do Proer ao Congresso
Nacional. Ao final das contas, o obscurantismo do Proer rendeu ao então
presidente, FHC, quatro pedidos de impeachment. Mas, na ocasião, o então
presidente da Câmara, Michel Temer, nem sequer discutiu: arquivou os quatro
pedidos.
Inobstante os problemas sistêmicos, o caminho do Real foi sendo
reformado, ainda, para se ajustar às novas condições que a moeda vinha
proporcionando. Assim, surgiu a âncora cambial.
Uma política
econômica engessada
Com a queda da inflação, a população passou a contar com a certeza
do valor das parcelas das compras a prazo – o que não acontecia antes. Isso causou
uma impressão de bonança nos consumidores, e afetou a execução da política
econômica. Diante disso, o governo adotou a chamada “âncora cambial”, com o
real mais valorizado do que o dólar, a fim de aumentar as importações e
garantir a oferta de produtos, necessária ao equilíbrio com a demanda, e, por
consequência, da inflação. Isto quer dizer que a política econômica passou a
depender da capacidade do governo sustentar aquele cenário do real maior que o
dólar.
Porém, era um cenário artificial, pois a supervalorização do real,
em relação ao dólar, significava que o país acumulava déficits no balanço de
pagamentos internacionais, em especial na balança comercial. Situação que durou
seis anos. O gráfico 2, mostra a sucessão de déficits comerciais que se inicia
em 1995 e só finda com a retomada das exportações a partir de 2001. E a partir
de 2002 a balança comercial se torna cada vez mais positiva, com pico de U$
46,5 bilhões em 2006.
Fonte:
Banco Central do Brasil
Quando a sustentação do câmbio não se tornou mais possível a
partir de treze de janeiro de 1999 - diante da redução no fluxo de dinheiro
externo - se sucederam os ataques especulativos à moeda nacional, exatamente
pela dependência internacional. A partir de então, o Plano Real deixou de ser
centrado na política cambial, permitindo que o dólar ultrapassasse a barreira
de R$ 2,00, partindo para a política monetária, centrada principalmente na alta
dos juros. A repercussão com pressão em alguns preços foi da ordem de 40%,
medida pelo IBGE. A taxa de juros elevada é uma medida que é até aceita no
mundo todo, desde que seja transitória. Se perdurar por muito tempo, compromete
as empresas, o setor público e também a poupança, porque reduz a capacidade de
geração de emprego e renda.
Uma abertura externa para as importações permitiu a entrada de
preços bem competitivos, o que fez aumentar a concorrência e segurar os preços,
o que acabou favorecendo a uma inflação baixa. Porém o cenário não foi
corrigido, pois para mantê-lo seria necessário sustentar os fluxos de capitais
do exterior para cobrir os déficits da balança comercial. Para dar sustentação
a esse quadro, o governo criou uma forte dependência dos fluxos de capitais
externos, forçando a elevação das taxas de juros nacionais a níveis superiores
aos internacionais. Com isso, a taxa de juros contribuiu para a entrada de
dinheiro internacional, e facilitou a obtenção de empréstimos por parte do
governo.
Dessa combinação de taxa de câmbio artificial com juros altos
resultaram dois problemas: o primeiro foi o aumento da dívida externa – tudo o
que o país deve no exterior, incluindo os setores público e privado - que se
deslocou de U$ 159,3 bilhões, em 1995 para U$ 241,6 bilhões em 1998. Em 2002 a
dívida total somava U$ 210,7 bilhões, contra reservas cambiais de U$ 45,7
bilhões.
De 1995 até 2006 as reservas do país estiveram inferiores ao
montante da dívida. Porém, a partir de 2002, o governo Lula passou a utilizar
os saldos positivos da balança comercial para quitar a dívida governamental com
o FMI, de forma antecipada, até a sua liquidação em 2005. Na medida em que foi
pagando a dívida, o Brasil foi aumentando a confiança dos investidores
internacionais, com impactos positivos no investimento estrangeiro. Além disso,
favorecidas pela taxa cambial, as exportações começaram a apresentar melhoras
significativas, revertendo a queda acumulada ao longo dos oito anos anteriores,
com o saldo positivo tendo expandido de U$ 13,1 bilhões, em 2002, para U$ 24,8
bilhões, no ano seguinte. Em 2007, as reservas brasileiras, em dólares,
superaram a dívida externa pela primeira vez.
O gráfico 3, a seguir, ilustra a relação entre as reservas
acumuladas e as dívidas públicas e privadas do país para com o exterior. A
dívida líquida é obtida da subtração da dívida externa total, do volume de
reservas internacionais. Quando a dívida líquida se torna negativa, a partir de
2007, significa que as reservas internacionais se tornaram superiores aos
compromissos externos. Em outras palavras, que existe excesso de dólares no
país. Mas a situação se modifica a partir de 2014.
Fonte:
Banco Central do Brasil
A dívida
pública: ferramenta ou ameaça?
O segundo problema foi o aumento da dívida pública – as dívidas
dentro do próprio país – que em 1995 somava R$ 108,6 bilhões (20,7% do PIB) e,
em 2002 chegara a U$ 893,3 bilhões (60,38% do PIB). Estes dois desequilíbrios,
interno e externo caracterizam o que a economia denomina de déficits gêmeos:
quando são constatados déficits nas contas públicas e nas transações externas.
Como o cenário de implantação e condução do real constituía
déficits que abrangiam todos os níveis de governo, estes levaram à criação da Lei
de Responsabilidade Fiscal (LRF) com a finalidade de estancar os endividamentos
municipais, estaduais e federais. Inicialmente, a LRF proporcionou um ambiente
de negociação das dívidas dos Estados e municípios para com a União,
sistematizou o pagamento dos juros e amortizações e, por fim, fixou as regras
para o equilíbrio entre receitas e gastos públicos. Mas, no que se refere ao
âmbito federal, especificamente em relação à dívida pública, a LRF deixou
muitas brechas, as quais permitiram o afrouxamento, sucessivo, das metas de
economia e redução de gastos do governo.
Além disso, o ajuste fiscal proposto no início do Plano, não se
deu conforme a intenção. Na prática, os governos FHC e Lula, sempre, falaram em
ajuste, mas as ações, neste sentido, foram insuficientes e os resultados pífios.
E, na campanha eleitoral de 2010, a então candidata Dilma Rousseff, negou a
necessidade de ajuste fiscal. Assim, desde 1995, as taxas de aumento dos gastos
do governo vêm superando os percentuais de crescimento do PIB, conforme
ilustrado no gráfico 4, a seguir.
Fonte:
Banco Central do Brasil
Enquanto isso, o aumento de impostos se constituiu na principal
medida para aumentar as receitas, tendo deslocado a carga tributária de 25,72%
do PIB em 1993 para 29,74% em 1998, chegando a atingir 35,85% no último ano de
FHC, em 2002. Apenas a CPMF, que vigorou entre 1997 e 2002, rendeu R$ 223
bilhões ao governo. Em 2015 o volume de impostos foi de 35,9% do PIB.
Mas, a arrecadação do
governo não tem se expandido na mesma proporção da carga tributária. Isto se
explica por três razões: a primeira é o aumento das transferências aos estados
e municípios, a partir de 1995, a segunda é a correção monetária, anual,
embutida nos impostos, e a terceira é que todos os segmentos e poderes
governamentais sabem da necessidade de corte de gastos, mas nenhum deles quer
ser atingido pelo ajuste.
Com isto, sem as mudanças fiscais necessárias, a política
econômica do Plano Real conduziu o país a um processo vicioso de endividamento,
sem precedentes na história brasileira. O gráfico 5, a seguir, apresenta, a evolução da dívida
pública nos dois decênios que começam em 1995 e se encerram em 2015. Observe
que, apesar da alternância do crescimento percentual, o aumento monetário da
dívida possui linha ascendente ao longo destes vinte anos.
Fonte: Banco Central do Brasil
Com o crescimento do
capital, os juros da dívida pública também não param de subir, e, para
completar, em nenhum momento, o ajuste fiscal apresenta-se factível.
Porque a
dívida é o problema?
O endividamento público pode ser analisado por diversos
parâmetros, entre eles, o tamanho da dívida em relação ao PIB, a carga de juros
incidentes, a taxa de crescimento do montante devido, mas em especial, a capacidade
de o governo economizar para honrar os juros e amortizações e. No caso
brasileiro, o endividamento público vem consumindo, cada vez mais, parcelas
maiores do orçamento federal. O problema já nasceu fora do controle com as
economias, feitas pelo governo, em volumes insuficientes para pagar os juros,
levando à incorporação destes ao capital devido, expandindo, exponencialmente,
o montante da dívida, e, por conseguinte os juros incidentes, exigindo
economias cada vez maiores. Isto quer dizer que todo o esforço, malsucedido, do
governo se resume a economizar para pagar juros: como uma pessoa mergulhada em
dívidas com agiotas.
No gráfico 6 são apresentados os montantes da dívida em cada
período de governo, os juros anuais e o total pago por cada governante. Em 1998
o governo gastou R$ 100 bilhões com o pagamento de juros, em 1999 foram R$ 144
bilhões, em 2002 bateu o pico de R$ 224 bilhões e em 2005 desceu a R$ 153
bilhões. Entre 1995 e 2005 foram pagos R$ 1,2 trilhão de juros. Este valor
equivale ao orçamento de 2016; ano em que o governo deverá desembolsar R$ 470,3
bilhões com os juros da dívida.
Fonte: Banco Central
do Brasil
Assim, para consolidar o Plano Real, o governo constituiu, a
partir de 1995, uma política econômica fundamentada no endividamento. O
conflito deste tipo de decisão econômica é que ele opõe os interesses dos
próprios objetivos em si. É simples: 1) o governo intuía a redução da inflação;
2) para isto recorreu ao aumento da dívida; 3) que por sua vez o obriga a
aumentar os juros; 4) os quais freiam os investimentos necessários ao
crescimento do PIB e à expansão do emprego.
O quadro econômico que se formou a partir desde conjunto é a
economia brasileira de hoje. Dado que todas as diretrizes para as ações
econômicas dos governos Pós-Real foram determinadas, de formas irrevogáveis,
pelo projeto da nova moeda.
A arquitetura do Real - por mais ambiciosa que pudesse parecer –
apresentou os caminhos para a solução do problema. Acontece que durante a
execução da política econômica, nenhum governo se mostrou capaz de, atingir as
metas fiscais propostas inicialmente. Ainda que a inflação tenha sido
controlada, a sua verdadeira causa jamais fora tratada de forma responsável.
Daí que cada governo se deteve à manutenção do equilíbrio conjuntural, ou seja,
momentâneo, em desprezo dos objetivos essenciais ao longo prazo.
A política
econômica do Real em cada Governo
De 1995 a 2002, FHC se concentrou nas privatizações (como descrito
anteriormente), adotou uma política cambial em prejuízo das exportações,
sustentada pela dívida externa; amarrou a política econômica à política
monetária, e, esta, à política fiscal. Lembrando que a política fiscal é
deficitária e sustentada pela dívida pública. em resumo: o papel do Banco
Central - de controlar a taxa de juros e a inflação - passou a depender,
exclusivamente, da capacidade de o governo pagar os juros incidentes sobre a dívida.
Assim, sempre que os juros não são cobertos, a dívida cresce, o que obriga o BC
a aumentar a taxa de juros.
No gráfico 7, a seguir, as cinco, principais, curvas de equilíbrio
macroeconômico foram plotadas seguindo uma ordem: 1) a linha rosa (inflação),
no meio do diagrama, e da legenda, é o objetivo; 2) as duas linhas acima dela,
e à sua direita na legenda, são as ferramentas utilizadas; e, 3) as duas linhas
abaixo no gráfico, e à sua esquerda, na legenda são os meios necessários.
Assim, temos que as taxas de juros (Selic) e de câmbio, são os
instrumentos usados pelo governo para regular o consumo e controlar a inflação,
mas, para chegar ao objetivo, ele precisa de insatisfazer os níveis de
desemprego (emprego) e de produção (PIB).
Fonte: Banco Central do Brasil
Para segurar a inflação, em seu primeiro governo,
FHC usou a taxa de câmbio para aumentar as exportações e a taxa de juros para
reduzir a demanda. A inflação caiu, mas custou o desemprego (12% em 2012) e a
queda da produção. De um lado o orçamento foi ficando cada vez mais
comprometido, e do outro, a dívida externa criada pela taxa de câmbio
comprometeu as ações econômicas do segundo governo. Desse modo, o segundo
governo FHC se concentrou na administração, e tentativas de correção, dos erros
cometidos durante o primeiro mandato.
Quando Lula assumiu, em 2002, o nó cambial – que tirou
o sono do país - já havia se dissolvido durante o segundo mandato tucano, e
isto favoreceu as exportações e devolveu, ao governo, o controle sobre a dívida
externa. Com menor dependência externa, abriu-se o caminho para a queda da Selic,
com reflexos positivos no PIB e na redução do desemprego. Para impulsionar
ainda mais, Lula usou os bancos públicos para forçar uma queda generalizada das
taxas de juros no país. Como resultado, durante oito anos, a economia
apresentou taxas crescentes de crescimento do PIB e aumento constante do emprego.
Porém, se tratava de um crescimento sustentado pelo crédito, ou seja, agora,
pelo endividamento geral: público e privado.
Como, mais uma vez, o governo não aproveitou o
cenário econômico, favorável, para promover, ou começar, as reformas fiscais
necessárias, a oportunidade passou. Mas a dívida pública não parou de subir.
Ao tomar posse, em 2010, a presidenta Dilma
Rousseff encontrou o melhor cenário econômico em dezesseis anos: inflação
controlada, Selic em queda, câmbio equilibrado, PIB em alta e desemprego em
queda. Mas a trajetória de equilíbrio se desfez ao longo de seu primeiro
mandato: o principal instrumento da política econômica, a taxa de juros teve
sua trajetória modificada e voltou a subir, repercutindo na queda do PIB e no
aumento do desemprego.
A taxa de câmbio também foi se deslocando, para
cima, até deixar de oscilar – como um viés – passando a subir continuamente.
Duas razões explicam estes eventos: 1ª) a alta da taxa de juros se deu em
função da expansão do gasto público ter sido maior que o aumento da arrecadação,
uma vez que o crescimento da carga tributária é neutralizado pela queda do PIB
(ver gráfico 4). Os níveis de crescimento do PIB refletem na arrecadação, e,
portanto, no orçamento do governo.
Já o aumento da taxa cambial foi se dando, em
grande parte, pela reação do mercado à percepção do problema fiscal brasileiro,
por parte das agências internacionais de risco e pelas constantes declarações
do FMI sobre a ineficiência do ajuste fiscal do país.
O desequilíbrio econômico se agravou com o tamanho
do crescimento da inflação, a qual saltou de 6,41% em 2014 para 10,67% em 2015,
rompendo, a meta estabelecida. Mas o desarranjo econômico se iniciara antes, em
2013, fato que, quase, custou a reeleição de Dilma em 2014 e transmitiu a ideia
de divisão do país. Observando a economia, a “divisão de 2010” parece encontrar
uma hipótese explicativa: o gráfico 2 mostra que a balança comercial
passou a sofrer déficits a partir daquele ano, tornando as reservas internacionais
inferiores à dívida externa total, gráfico
3. Retornando ao gráfico 4 observamos que o PIB se torna negativo em
2015 com o dobro de desemprego, gráfico 7, o que passa a caracterizar
uma recessão econômica. Porém, ao contrário destas mudanças, as trajetórias de
crescimento do gasto público e da dívida pública não se modificaram, conforme
mostram os gráficos 4 e 5.
No gráfico 6, podemos verificar que em
quatro anos, o governo Dilma pagou R$ 943 bilhões em juros, e para 2016 o valor
deverá ser mais da metade disso, R$ 470 bilhões.
O gráfico 8 ilustra aquilo que me referi
como a “asfixia” do orçamento federal, quando, a partir de 2011, a linha azul,
que mostra a economia do governo para o pagamento dos juros (o superávit
primário), entra em linha decrescente até cruzar à linha vermelha, que exibe o
crescimento dos valores destes juros, em movimento, sempre, crescente. As
linhas escuras, mais finas, sobrepostas, representam as tendências das duas ao
longo do tempo.
Fonte: Banco Central do Brasil
A tendência de crescimento dos juros se revela
exponencial, enquanto a de geração de superávit primário obedece aos momentos
econômicos, com altos e baixos, portanto, inconstante.
A manifestação do esgotamento da política de
endividamento, iniciada em 1995, se dá a partir do cruzamento das duas linhas,
indicando a insustentabilidade da dívida. Com isto, diante de uma realidade
econômica que desmente o discurso político, ficou mais difícil para o governo
sustentar a confiança na estabilidade da economia.
A pergunta que se põe aqui é: porque esta política
econômica, sustentada no crescimento constante da dívida pública, que criou
tantas ilusões e as quimeras da classe média, perdurou por vinte anos, sem que
ninguém se esperneasse? Porque somente agora o “Brasil” se dá conta de que é
necessário girar o leme econômico? A resposta é simples: a gritaria começou
quando o governo deixou de priorizar o superávit primário, e isto sinalizou a
situação de emergência da política econômica. Em outras palavras, a circunstância
exige uma mudança de rumo, sem paliativo.
O risco da
inviabilidade da política de endividamento
A política fiscal trata da
estrutura de receitas e despesas executadas pelo Governo para cumprir as
funções que a sociedade lhe atribui, as quais interferem diretamente não só nos
fluxos de apropriação e de destinação da renda gerada, como também na
composição dos custos de bens e serviços produzidos pela economia. Na obtenção
de empréstimos públicos, o Governo concorre com demais agentes que operam no
sistema, absorvendo parte da poupança líquida do setor privado – aplicada na
aquisição de títulos da dívida pública. Por outro lado, na execução da política
tributária, o Governo reduz o poder aquisitivo da sociedade, a qual lhe
transfere renda.
No desempenho de suas funções de
produtor de serviços e agente de redistribuição de renda, o Governo é
responsável importante por fluxos de despesas correntes, classificadas em quatro categorias
básicas: 1ª) Consumo do Governo: é o
conjunto dos gastos básicos, como despesas com pessoal, materiais, compras de
materiais de uso corrente, entre outros: 2ª) Investimentos do Governo: em infraestrutura, novos hospitais e
universidades, e por aí vai; 3ª) Subsídios:
tratam dos gastos como financiamentos estudantis, programas de incentivo à
agricultura; e a 4ª) Transferências unilaterais: inclui despesas como as
previdenciárias e programas sociais como o bolsa-família.
A Política fiscal exerce efeitos
sobre o deslocamento da economia, de várias formas, neste sentido, é importante
considerar a combinação das políticas monetária e fiscal, neste deslocamento. O
Efeito deslocamento ocorre quando uma política fiscal deficitária, como a
brasileira, faz com que as taxas de juros aumentem, reduzindo, portanto, os
gastos privados, em particular o investimento.
Os déficits podem ser financiados
de duas formas: financiados pela dívida, quando o governo decide se financiar
via empréstimos, contraídos no mercado, com a venda de títulos; ou, então, financiados
pela moeda, neste caso a
opção é pela venda de títulos ao BC.
A importância dessa distinção é que
a venda de títulos ao público não cria moeda, ou seja, a quantidade de dinheiro
na economia não muda; o que acontece quando o comprador dos títulos é o Banco
Central, porque o BC cria moeda para pagar pelos títulos, o que aumenta a
quantidade de moeda. Uma política assim é como fermento para a inflação.
Diante de todo este quadro, algumas
perguntas se impõem, exigindo respostas claras por parte do Brasil: 1ª) Até que
ponto, ainda, o país poderá incorrer em longas séries de déficits orçamentários
e qual será, o custo desses déficits? 2ª) Como os déficits orçamentários serão
financiados? 3ª) A dívida pública se tornou um fardo? 4ª) Qual a relação do
financiamento do déficit com a taxa de juros e com o crescimento do país? 5ª)
Qual o ônus do financiamento do déficit sobre o setor produtivo e o nível de
emprego? 6ª) Até que ponto os trabalhadores aceitarão a compressão dos salários
reais? 7ª) O que representa o pagamento por R$ ao ano, sobre as receitas do governo?
8ª) Qual é a medida da participação do déficit governamental no deslocamento do
investimento?
A última pergunta, que finaliza
este texto, se põe acima de todas as demais por ser a questão central desta discussão:
nas condições atuais, a política de déficits pode envolver o risco de descontrole
da dívida e da sua razão de crescimento, que, em última instância, termine
tanto no repúdio contra a dívida como na sua liquidação inflacionária?
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