segunda-feira, 2 de maio de 2016

A política econômica do Real em cada Governo

Este texto é a 2ª parte do artigo: Inflação e déficit público no Brasil: ou as fragilidades da economia brasileira
 
De 1995 a 2002, FHC se concentrou nas privatizações (como descrito anteriormente), adotou uma política cambial em prejuízo das exportações, sustentada pela dívida externa; amarrou a política econômica à política monetária, e, esta, à política fiscal. Lembrando que a política fiscal é deficitária e sustentada pela dívida pública. em resumo: o papel do Banco Central - de controlar a taxa de juros e a inflação - passou a depender, exclusivamente, da capacidade de o governo pagar os juros incidentes sobre a dívida. Assim, sempre que os juros não são cobertos, a dívida cresce, o que obriga o BC a aumentar a taxa de juros.
No gráfico 7, a seguir, as cinco, principais, curvas de equilíbrio macroeconômico foram plotadas seguindo uma ordem: 1) a linha rosa (inflação), no meio do diagrama, e da legenda, é o objetivo; 2) as duas linhas acima dela, e à sua direita na legenda, são as ferramentas utilizadas; e, 3) as duas linhas abaixo no gráfico, e à sua esquerda, na legenda são os meios necessários.
Assim, temos que as taxas de juros (Selic) e de câmbio, são os instrumentos usados pelo governo para regular o consumo e controlar a inflação, mas, para chegar ao objetivo, ele precisa de insatisfazer os níveis de desemprego (emprego) e de produção (PIB).
 
Fonte: Banco Central do Brasil

Para segurar a inflação, em seu primeiro governo, FHC usou a taxa de câmbio para aumentar as exportações e a taxa de juros para reduzir a demanda. A inflação caiu, mas custou o desemprego (12% em 2012) e a queda da produção. De um lado o orçamento foi ficando cada vez mais comprometido, e do outro, a dívida externa criada pela taxa de câmbio comprometeu as ações econômicas do segundo governo. Desse modo, o segundo governo FHC se concentrou na administração, e tentativas de correção, dos erros cometidos durante o primeiro mandato.
Quando Lula assumiu, em 2002, o nó cambial – que tirou o sono do país - já havia se dissolvido durante o segundo mandato tucano, e isto favoreceu as exportações e devolveu, ao governo, o controle sobre a dívida externa. Com menor dependência externa, abriu-se o caminho para a queda da Selic, com reflexos positivos no PIB e na redução do desemprego. Para impulsionar ainda mais, Lula usou os bancos públicos para forçar uma queda generalizada das taxas de juros no país. Como resultado, durante oito anos, a economia apresentou taxas crescentes de crescimento do PIB e aumento constante do emprego. Porém, se tratava de um crescimento sustentado pelo crédito, ou seja, agora, pelo endividamento geral: público e privado.
Como, mais uma vez, o governo não aproveitou o cenário econômico, favorável, para promover, ou começar, as reformas fiscais necessárias, a oportunidade passou. Mas a dívida pública não parou de subir.
Ao tomar posse, em 2010, a presidenta Dilma Rousseff encontrou o melhor cenário econômico em dezesseis anos: inflação controlada, Selic em queda, câmbio equilibrado, PIB em alta e desemprego em queda. Mas a trajetória de equilíbrio se desfez ao longo de seu primeiro mandato: o principal instrumento da política econômica, a taxa de juros teve sua trajetória modificada e voltou a subir, repercutindo na queda do PIB e no aumento do desemprego.
A taxa de câmbio também foi se deslocando, para cima, até deixar de oscilar – como um viés – passando a subir continuamente. Duas razões explicam estes eventos: 1ª) a alta da taxa de juros se deu em função da expansão do gasto público ter sido maior que o aumento da arrecadação, uma vez que o crescimento da carga tributária é neutralizado pela queda do PIB (ver gráfico 4). Os níveis de crescimento do PIB refletem na arrecadação, e, portanto, no orçamento do governo.
Já o aumento da taxa cambial foi se dando, em grande parte, pela reação do mercado à percepção do problema fiscal brasileiro, por parte das agências internacionais de risco e pelas constantes declarações do FMI sobre a ineficiência do ajuste fiscal do país.
O desequilíbrio econômico se agravou com o tamanho do crescimento da inflação, a qual saltou de 6,41% em 2014 para 10,67% em 2015, rompendo, a meta estabelecida. Mas o desarranjo econômico se iniciara antes, em 2013, fato que, quase, custou a reeleição de Dilma em 2014 e transmitiu a ideia de divisão do país. Observando a economia, a “divisão de 2010” parece encontrar uma hipótese explicativa: o gráfico 2 mostra que a balança comercial passou a sofrer déficits a partir daquele ano, tornando as reservas internacionais inferiores à dívida  externa total, gráfico 3. Retornando ao gráfico 4 observamos que o PIB se torna negativo em 2015 com o dobro de desemprego, gráfico 7, o que passa a caracterizar uma recessão econômica. Porém, ao contrário destas mudanças, as trajetórias de crescimento do gasto público e da dívida pública não se modificaram, conforme mostram os gráficos 4 e 5.
No gráfico 6, podemos verificar que em quatro anos, o governo Dilma pagou R$ 943 bilhões em juros, e para 2016 o valor deverá ser mais da metade disso, R$ 470 bilhões.
O gráfico 8 ilustra aquilo que me referi como a “asfixia” do orçamento federal, quando, a partir de 2011, a linha azul, que mostra a economia do governo para o pagamento dos juros (o superávit primário), entra em linha decrescente até cruzar à linha vermelha, que exibe o crescimento dos valores destes juros, em movimento, sempre, crescente. As linhas escuras, mais finas, sobrepostas, representam as tendências das duas ao longo do tempo.
Fonte: Banco Central do Brasil
A tendência de crescimento dos juros se revela exponencial, enquanto a de geração de superávit primário obedece aos momentos econômicos, com altos e baixos, portanto, inconstante.
A manifestação do esgotamento da política de endividamento, iniciada em 1995, se dá a partir do cruzamento das duas linhas, indicando a insustentabilidade da dívida. Com isto, diante de uma realidade econômica que desmente o discurso político, ficou mais difícil para o governo sustentar a confiança na estabilidade da economia.

A pergunta que se põe aqui é: porque esta política econômica, sustentada no crescimento constante da dívida pública, que criou tantas ilusões e as quimeras da classe média, perdurou por vinte anos, sem que ninguém se esperneasse? Porque somente agora o “Brasil” se dá conta de que é necessário girar o leme econômico? A resposta é simples: a gritaria começou quando o governo deixou de priorizar o superávit primário, e isto sinalizou a situação de emergência da política econômica. Em outras palavras, a circunstância exige uma mudança de rumo, sem paliativo.
O risco da inviabilidade da política de endividamento
A política fiscal trata da estrutura de receitas e despesas executadas pelo Governo para cumprir as funções que a sociedade lhe atribui, as quais interferem diretamente não só nos fluxos de apropriação e de destinação da renda gerada, como também na composição dos custos de bens e serviços produzidos pela economia. Na obtenção de empréstimos públicos, o Governo concorre com demais agentes que operam no sistema, absorvendo parte da poupança líquida do setor privado – aplicada na aquisição de títulos da dívida pública. Por outro lado, na execução da política tributária, o Governo reduz o poder aquisitivo da sociedade, a qual lhe transfere renda.
No desempenho de suas funções de produtor de serviços e agente de redistribuição de renda, o Governo é responsável importante por fluxos de despesas correntes, classificadas em quatro categorias básicas: 1ª) Consumo do Governo: é o conjunto dos gastos básicos, como despesas com pessoal, materiais, compras de materiais de uso corrente, entre outros: 2ª) Investimentos do Governo: em infraestrutura, novos hospitais e universidades, e por aí vai; 3ª) Subsídios: tratam dos gastos como financiamentos estudantis, programas de incentivo à agricultura; e a 4ª) Transferências unilaterais: inclui despesas como as previdenciárias e programas sociais como o bolsa-família.
A Política fiscal exerce efeitos sobre o deslocamento da economia, de várias formas, neste sentido, é importante considerar a combinação das políticas monetária e fiscal, neste deslocamento. O Efeito deslocamento ocorre quando uma política fiscal deficitária, como a brasileira, faz com que as taxas de juros aumentem, reduzindo, portanto, os gastos privados, em particular o investimento.
Os déficits podem ser financiados de duas formas: financiados pela dívida, quando o governo decide se financiar via empréstimos, contraídos no mercado, com a venda de títulos; ou, então, financiados pela moeda, neste caso a opção é pela venda de títulos ao BC.
A importância dessa distinção é que a venda de títulos ao público não cria moeda, ou seja, a quantidade de dinheiro na economia não muda; o que acontece quando o comprador dos títulos é o Banco Central, porque o BC cria moeda para pagar pelos títulos, o que aumenta a quantidade de moeda. Uma política assim é como fermento para a inflação.
Diante de todo este quadro, algumas perguntas se impõem, exigindo respostas claras por parte do Brasil: 1ª) Até que ponto, ainda, o país poderá incorrer em longas séries de déficits orçamentários e qual será, o custo desses déficits? 2ª) Como os déficits orçamentários serão financiados? 3ª) A dívida pública se tornou um fardo? 4ª) Qual a relação do financiamento do déficit com a taxa de juros e com o crescimento do país? 5ª) Qual o ônus do financiamento do déficit sobre o setor produtivo e o nível de emprego? 6ª) Até que ponto os trabalhadores aceitarão a compressão dos salários reais? 7ª) O que representa o pagamento por R$ ao ano, sobre as receitas do governo? 8ª) Qual é a medida da participação do déficit governamental no deslocamento do investimento?
A última pergunta, que finaliza este texto, se põe acima de todas as demais por ser a questão central desta discussão: nas condições atuais, a política de déficits pode envolver o risco de descontrole da dívida e da sua razão de crescimento, que, em última instância, termine tanto no repúdio contra a dívida como na sua liquidação inflacionária?

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