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| Polícia: Seeduc sem diálogo |
Entre a manhã e o
início da tarde desta terça-feira (17/05), eu acompanhei um ato público promovido pelos
estudantes secundaristas das Escolas Caic Tiradentes/Reverendo Hugh Clarence
Tucker. Antes disto, eu estive na escola, em várias ocasiões, nas quais
conversei com estudantes, pais, professores e apoiadores externos ao movimento.
Através destas conversas eu pude entender sobre as razões que
motivaram este
movimento estudantil, a sua continuidade e seus impasses.![]() |
| Roda de debate |
Para continuar, é
importante ter em mente o nome da escola: Caic Tiradentes/Reverendo Hugh
Clarence Tucker, que parece, no mínimo, estranho. E este é o primeiro ponto da
pauta, pois, na prática trata-se de duas escolas: uma é o Caic Tiradentes, e a
outra é o Reverendo Hugh Clarence Tucker. As duas unidades funcionavam de forma
independente até junho de 2012, quando o Caic foi removido do Caju - atendendo
a uma determinação da Defesa Civil - onde funcionava há mais de trinta anos, a
qual o interditara alegando riscos de segurança. Dois meses depois, o local se
tornou uma Unidade de Polícia Pacificadora-UPP. A escola passou a dividir
espaço com a Escola Monteiro de Carvalho, por seis meses, em Santa Teresa, há
quase dez quilômetros de distância.
Em 2013, quando os
estudantes, ainda se refaziam do choque da mudança, o Caic foi deslocado,
novamente, para o Reverendo, no Centro da Cidade, uma escola que mal comportava
a demanda local. Aliás, o Reverendo, também, é resultado de outra escola
despejada, em 2012, o Colégio Benjamin Constant, nome que consta nos registros
da Secretaria de Estado de Educação-Seeduc, em contradição com a fachada da
Escola. Naquele mesmo ano, o Estado extinguiu o Colégio Vicente Licínio Cardoso,
na região do “Porto Maravilha”. Atualmente, o Caic/Reverendo é a única escola
em toda a região.
Diante do momento
porque passam os professores da rede estadual, em greve deflagrada no dia quatro
de março, que inclui professores do Caic/Reverendo, os estudantes decidiram, no
dia 18 de abril, pela ocupação da escola, em apoio aos professores, assim como
está acontecendo em outras 72 escolas de todo o Estado, por razões semelhantes.
Além disto, depois que se reuniram, os estudantes passaram a desenvolver
propostas para a escola.
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| Oficina de Teatro |
E como funcionam
estas duas escolas? O prédio possui quatro andares com aproximadamente 600 metros
de área construída, onde existe um banheiro, uma pequena biblioteca, uma
cozinha, um refeitório e outras duas salas de uso administrativo. Nos demais
pavimentos funcionam as salas de aula e as de complementação pedagógica. No
turno da manhã a escola é o Caic, onde existe uma estrutura administrativa e
pedagógica própria. À tarde e à noite funciona o Reverendo: outra escola, com
uma administração diferente e professores diferentes. Os assuntos relacionados
aos estudantes do matutino, só podem ser resolvidos pela manhã. Enquanto os
problemas, do vespertino e do noturno, ficam dispensados para a tarde e à
noite.
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| Ato Público do dia 17/05 |
O que as escolas
têm em comum são os problemas: 1) não existe área para recreação, nem interna,
tampouco externa, a escola possui grades dos portões às janelas, e não há
intervalo (recreio) entre as aulas, na parte da manhã; 2) não existe uma caixa
de água própria e a única existente é dividida com uma igreja e uma creche; 3)
inexiste uma quadra poliesportiva e o Estado aluga uma em condições inadequadas
para as aulas práticas de Educação Física; 4) faltam professores nas
disciplinas de química, física e português; 5) faltam funcionários,
principalmente na área de segurança, a escola não possui sequer um porteiro; 6)
os laboratórios de química e informática estão fechados, os alunos não têm
acesso; os elevadores não funcionam; 7) aparelhos de ar condicionado que não
funcionam; 8) iluminação inadequada e falta de circulação de ar; 9) não possui
saída de emergência. Na área pedagógica as reclamações também foram definidas:
1) a extinção do Saerjinho e o fim do currículo mínimo.
Mas a questão
ainda não pára por aí. Na área de gestão, as ocupações têm gritado pela eleição
direta para diretor. Ao conversar com os estudantes, eles descreveram vários
problemas relacionados às escolas, e em uníssono reclamam por não serem
ouvidos, nem chamados para conversar e/ou para se engajarem em alguma coisa. Eles
me disseram que existe uma ideia de que ninguém ali quer nada, e eles estão
fartos de disso. Eu ouvi: a gente vem para cá e não tem nada, ou quase nada de
interessante, é só uma obrigação que todo mundo fala que não vai dar em nada. Então
vamos ter que mudar. Foi isto que me fez escrever este artigo.
Todas
as crises brasileiras podem ser analisadas a partir de um mesmo ponto: a
educação. Mesmo que existam grandes profissionais no país, grandes
universidades, grandes mestres, pesquisadores renomados, grandes juristas,
todos são frutos de um sistema deformado.
A educação
brasileira tem raízes no positivismo francês de August Comte (1798-1857). Os
principais pontos do pensamento comtiano gravitam em torno da completa reforma
intelectual do homem. Segundo ele, assim, seria possível uma mudança radical no
pensamento e no comportamento em sociedade. Para tanto, considerava, o papel da
física social e o coroamento da ciência, como ordenadores da sociedade positiva,
o que implicava na substituição do estado teológico pelo estado metafísico.
Daí, com o coroamento da ciência, se estabeleceria o estado positivo com
desenvolvimento político, social, ordem e progresso.
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| Equipe de futsal |
No
Brasil, as ideias de Comte influenciaram, em especial, a educação
técnica-militar e a Constituição Republicana, chegando ao ponto de se tornar
lema da bandeira nacional. Mas, ao contrário da física social, aqui permaneceu
a ordem hierárquica, com uma preocupação excessiva com a ordem social, sem
realçar a natureza dos conflitos. Desse modo, o Brasil desenvolveu uma educação,
não como um processo de socialização, mas, tecnicista, para resolver problemas.
Ao ouvir
os estudantes das ocupações, e constatar o inconformismo, mas, em especial ao
observar a maneira como se ocuparam, na escola, neste período, com rotinas e
horários definidos - para dormir e acordar no dia seguinte, organização das
tarefas de limpeza, cozinha, vigilância, os horários de funcionamento de equipamentos
como ar condicionado e a racionalização da alimentação – tive a impressão de
que se tratava de uma força tarefa.
Mas, ao
acompanhar a programação pedagógica diária, com aulas de disciplinas como
sociologia e filosofia, debates sobre assuntos variados e oficinas de capoeira,
teatro, música e rodas de leitura e bate-papo, eu me lembrei de Durkheim, outro
sociólogo francês. Para Émile Durkheim (1858-1917), diferentes de outras
espécies, o ser humano não possui o conhecimento necessário à vida em
sociedade, e a educação incute outra natureza, a qual o afasta da natureza
egoísta, contemplando valores morais e as normas da sociedade. Uma vez
incorporados os valores e as normas, os indivíduos reproduziriam isso na
sociedade, o que tornaria a vida em grupo harmônica e coesa. No pensamento de
Durkheim, a diferenciação e o individualismo precisavam do equilíbrio de uma
força superior, a qual ele denominou “solidariedade orgânica”, para definir as
leis que ligam os indivíduos. Por defender o respeito às regras para o
funcionamento da sociedade, ele foi rotulado de funcionalista.
Pressionado
por organizações internacionais para promover a inclusão, o Brasil vem
multiplicando o número de vagas nas escolas e nas universidades, mas sem a
devida conexão com a realidade. A ampliação do acesso à educação, no Brasil,
não está necessariamente vinculada à qualidade da educação.
Este
sistema alimenta o processo educacional com pouco gosto pelo saber, pela
leitura e pelo valor do conhecimento, por ele mesmo, sem um fim específico em
si.
Os estudantes
estão reivindicando escolas que contenham valores como cidadania, democracia e
solidariedade, em substituição à participação não-social, do universo do
consumo, onde o “ter” prevalece ao “ser”, ou o “parecer ter”, pois essa passa a
ser a chave para o reconhecimento social.
Aquela
imagem bela, veiculada nas propagandas, apresentando escolas-modelo, em uma
cidade moderna, não condizem com a realidade e não estão conseguindo produzir a
ilusão suficiente para as pessoas e não estão conseguindo evitar o inevitável,
em algum momento: que realidades diferentes possuem necessidades diferentes.
O
grande desafio, da Secretaria de Educação, é o de encontrar medidas que possam
criar currículos capazes de estimular o educando, para leva-lo à consciência do
que é o conhecimento, de que ele nos ensina a ver o mundo e nos liberta das
ditaduras. Porém, para isto, quem comandar a Secretaria precisará ter em mente
que a educação começa pelo diálogo. Quando estudantes, adolescentes,
pré-julgados, com poucas condições, sem aulas durante um período de greve de
professores, se dispõem a deixar suas casas, suas diversões e tantas outras
coisas, e decidem ocupar uma escola, apresentando uma lista de necessidades de
tal ordem, é o momento em que o modelo educacional não responde mais às suas
propostas.
A educação
técnica-militar não serve para nada neste momento, porque, agora a Secretaria
está sendo convidada a dialogar, aquela educação do “sim senhor” e do “não
senhor”, parece que está ruindo.




