A investigação da Operação Lava Jato, em curso
desde março de 2015, com prisões injustificadas, vazamentos seletivos sobre os
inquéritos e a dificuldade de provar a propriedade do tríplex do edifício
Solaris, no Guarujá, mostram que no Brasil, a lei pode ser utilizada para
respaldar intenções obscuras. Com o vazamento das gravações em que o ex-senador
Delcídio Amaral propõe um plano de fuga para Nestor Cerveró, preso em Curitiba,
o Supremo Tribunal Federal reagiu com “indignação” e decretou a sua prisão,
imediata. Mas, quando se tornaram públicas, as gravações em que o senador
Romero Jucá fala de um “acordão”, entre os três poderes, para por um fim na
Lava jato, o STF não se pronunciou e o governo minimizou o assunto. Se na Lava
Jato existe o objetivo declarado de destruição política do ex-presidente Lula,
o mesmo não aconteceu na investigação da morte do prefeito de Santo André,
Celso Daniel, morto, com oito tiros, no dia 20 de janeiro de 2002, dois dias
após ser sequestrado.
Quando o processo de impeachment da presidenta,
Dilma Rousseff, foi chamado de “golpe”, seus defensores, a imprensa e os
ministros do STF entraram em ação afirmando, o tempo todo, que o impeachment é
um processo previsto na Constituição. Porém, nenhum deles discutiu as razões do
golpe, contrário a todos os laudos técnicos que declararam a inexistência de
crime de responsabilidade. No caso Celso Daniel, o esforço foi no sentido de
declarar o sequestro e a morte como “crime comum”. Mas, no rastro do caso do
prefeito, somam-se sete mortes, de pessoas que insistiam em outras hipóteses.
E, além das mortes, o assassinato produziu cinco refugiados políticos.
Após ameaças de morte por insistir na elucidação do
caso, Bruno José Daniel Filho e Marilena Nakano, irmão e cunhada de Celso
Daniel, e seus três filhos foram forçados a deixar o Brasil, em busca de exílio
na França, em março de 2006. Onde, fizeram um pedido de asilo político junto ao
Ofício Francês de Proteção aos Refugiados e Apátridas (OFPRA), órgão que avalia
as solicitações de abrigo por pessoas que sofrem perseguição política em seus
países. Para justificar o pedido, apresentaram ao OFPRA
depoimentos de amigos e reportagens de jornais, brasileiros sobre o caso, que
noticiavam as ameaças. O pedido foi aceito: todos os membros da família foram reconhecidos,
pelo governo francês, como cidadãos brasileiros que sofrem perseguição política,
cuja segurança física e liberdade de expressão não são garantidas pelo Brasil.
Bruno Daniel e Marilena Nakano lutavam para descobrir
os motivos do assassinato, e insistiam na tese de “crime de mando”. Acontece
que, no decorrer das investigações, sete pessoas ligadas ao caso, foram mortas
em condições suspeitas. A possibilidade de as reais motivações do crime virem à
tona tem representado a sentença de morte de quem se aproxima da verdade. O
caso já foi reaberto duas vezes, sendo alvo de investigações do Ministério Público,
Polícia Civil e até da CPI dos Bingos, em Brasília. Para o Ministério Público,
Daniel foi vítima de crime de mando, encomendado pelo seu amigo e ex-segurança
Sérgio Gomes da Silva. Segundo os promotores Celso Daniel teria descoberto um
esquema de corrupção na Prefeitura de Santo André, para financiar campanhas do
PT e que o sequestro teria sido simulado para acobertar as reais motivações do
crime.
Em entrevista, Bruno Daniel falou sobre uma
conversa que tivera com o irmão, poucos dias antes do sequestro. Segundo ele,
Celso Daniel relatou a existência do esquema de desvio de dinheiro, da Prefeitura,
para o PT, e manifestou sua preocupação com a descoberta de que, além do
partido, membros petistas também se beneficiavam com o recebimento de parte do
dinheiro desviado. Ele participava do desvio para o partido, mas discordava dos
aproveitamentos pessoais. E revelara, ao irmão, a existência de um dossiê,
preparado por ele, afim se defender, caso o arranjo fosse descoberto.
Três meses após a morte de Celso Daniel, o preso Dionísio Severo foi morto
dentro cadeia, dois dias depois de ter mencionado que sabia sobre o caso. Ele
foi apontado como o contato entre o empresário Sérgio Gomes da Silva, acusado
pelo Ministério Público do Estado de São Paulo de ser o mandante do crime, e os
executores do assassinato. Dionísio Severo foi resgatado da cadeia, de
helicóptero, em uma fuga cinematográfica, dois dias antes do crime, sendo recapturado
logo depois. O homem que abrigou Dionísio, Sérgio "Orelha", também foi morto. Otávio Mercier, investigador de
polícia que ligou para Severo na véspera do sequestro de Celso Daniel, levou
dois tiros dentro de sua casa.
E a o rastro de sangue não pára por aí, Antonio Palácio de Oliveira, o garçom
que serviu à mesa em que estavam Celso Daniel e Sérgio Gomes, na noite do
sequestro, também foi morto em fevereiro de 2003. Seu corpo foi encontrado com documentos falsos e recebera um depósito de
R$ 60 mil, em sua conta, após a morte do prefeito.
Vinte dias depois foi a vez de Paulo Henrique Brito, única testemunha da morte do garçom Antonio Palácio de
Oliveira. Em dezembro de 2003, o agente funerário Ivan Moraes Rédua, foi morto com dois tiros pelas costas. Foi ele
quem encontrou o corpo de Celso Daniel jogado na estrada, reconheceu e chamou a
polícia.
A sétima morte suspeita, ligada ao caso, foi a do
médico-legista, Carlos Delmonte Printes,
que fez a autópsia no cadáver de Celso Daniel. Ele declarou que o ex-prefeito
de Santo André foi torturado antes de ser assassinado. O médico foi encontrado
morto em seu escritório na Zona Sul de São Paulo, no dia 12 de outubro de 2005.
O laudo oficial sobre a causa da morte do legista apontou que ele cometeu
suicídio.
Porém, menos
de um mês antes de morrer, Carlos Delmonte foi ao Programa do Jô, da TV Globo.
Na ocasião, disse que recebeu pressão de políticos para que aceitasse a
hipótese de crime comum, mas que ele qualificava como “inverossímil”. Ele disse
ainda que fora proibido de falar, publicamente, sobre o caso pelo diretor do
Instituto Médico Legal.
Entre os políticos que o
teriam pressionado, o legista citou o nome do deputado Luiz
Eduardo Greenhalgh, do PT. Segundo ele, quando o corpo do prefeito chegou ao Instituto, o IML foi invadido por políticos de Brasília; e havia um consenso sobre a hipótese de crime comum.
Eduardo Greenhalgh, do PT. Segundo ele, quando o corpo do prefeito chegou ao Instituto, o IML foi invadido por políticos de Brasília; e havia um consenso sobre a hipótese de crime comum.
Curiosamente, Luiz Eduardo Greenhalgh, foi o
candidato derrotado na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados no
início de 2005. O vencedor foi o candidato "independente" Severino
Cavalcanti. Na época, o PT possuía a maior bancada, o que pelo acordo dos
partidos, garantia a vitória de Greenhalgh. Pouco tempo depois, o deputado
Roberto Jéfersom denunciou o “mensalão”, e a derrota petista na presidência da
Câmara seria a retaliação dos deputados ao fim do “mensalão”. Segundo o doleiro
Toninho da Barcelona, o PT assegurou o apoio de Severino ao governo pelo preço
de R$ 8 milhões.
Toninho da Barcelona diz ainda conhecer detalhes
sobre remessas ilegais – para o exterior - de dinheiro de empresas de
transportes da cidade de Santo André, mas, já declarou que está proibido de
falar sobre este assunto. Para o Ministério Público, existem pessoas da classe
política envolvidas no crime. Até agora, apenas Sérgio Gomes da Silva foi
julgado e condenado, mas está solto por uma liminar concedida pelo então
ministro do STF, Nelson Jobim.
Quatro meses antes da morte de Celso Daniel, o
prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, foi assassinado
a tiros na porta de sua casa, em 10 de setembro de 2001. Sua morte também foi
declarada como crime comum. Será?
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