O destino da presidenta Dilma Rousseff foi selado
na madrugada da quarta-feira, 10, com a aprovação do relatório do senador
Antonio Anastasia, do PSDB-MG, por 54 votos a favor e 22 contra, recomendando o
afastamento definitivo da presidenta. A sessão ocorreu sem surpresas, assim
como o seu resultado.
O processo de impeachment
enfrenta controvérsias semânticas: seus defensores apontam um suposto crime
de responsabilidade cometido pela presidenta, enquanto os contrários acusam o
processo de golpe. O crime atribuído seria o atraso de repasses de dinheiro do
governo aos bancos públicos – Caixa e Banco do Brasil – para cobrir gastos com
o pagamento de programas sociais, como o Bolsa Família. Enquanto para outros a
saída presidencial se deve à “culpa” que o Partido da presidenta, o PT, tem
sobre a corrupção no país. Para os contrários ao afastamento, os bancos são
públicos, pertencem ao governo, e, portanto, o atraso do repasse de dinheiro
não configura crime. Argumentam, também, que a corrupção não é uma questão
resumida ao Partido dos Trabalhadores.
Assim, vamos
aos fatos: a primeira Comissão Parlamentar de Inquérito, CPI, para
investigar a Petrobrás, foi constituída no ano de 1955, depois houve a segunda,
em 1957, em seguida, uma em 1958, e depois em 1960.
Antes de qualquer coisa, é preciso lembrar de que o
processo de impeachment é uma investigação
realizada pelo Congresso com um julgamento político. Na prática, estamos diante
de uma questão de jurisprudência sendo julgada por não-juristas, e mais: vários
áudios feitos pela justiça e por membros do governo interino, e divulgados na
imprensa, esclarecem, detalhadamente, quais são os interesses envolvidos no
processo e quais são as pessoas atrás destes interesses. As gravações deixam
claro que o impeachment é um caso
viciado politicamente, sem a mínima preocupação com a legalidade: não se trata
de uma questão legal, mas daquilo que interessa aos congressistas.
A Constituição prevê o afastamento do presidente,
como o Código Penal prevê penas para crimes contra a vida, mas a previsão do
Código Penal não nos permite acusar e punir inocentes. Tanto que há uma série
de normas a serem atendidas por membros de um corpo de jurados (júris populares),
mas no caso do julgamento da presidenta, os jurados fizeram acordos, negociaram
e sabe-se mais o que... O processo contra Dilma segue um curso protocolar para
o cumprimento dos trâmites legais, com resultados já previstos por todos.
Para eleger Dilma, em 2010, o então
presidente Lula construiu uma rede de alianças que aglutinou as mais diversas
facções políticas regionais. Um exemplo é o senador Anastasia, que recomendou o
julgamento, antes disso, ele esteve na campanha de Dilma em 2010. Uma junção de
forças incomum se formou em torno da candidatura de Dilma, que se reelegeu em
2014. Mas, o que aconteceu para provocar a erosão política da presidenta?
Ao contrário do seu antecessor, Lula,
Dilma não imprimiu uma marca de diálogo com a audição e a negociação com outros
partidos, nem com os governadores, e menos ainda, com os prefeitos. Para
construir a base governista, a opção foi pela distribuição de cargos de acordo
com a adesão dos partidos ao governo, com pouco, ou nenhum diálogo sobre os
ideais de governabilidade. Desse modo, no início do seu primeiro governo, a
presidenta perdeu a oportunidade de manter a coalisão construída por Lula, e no
decurso do seu mandato, não demonstrou a liderança necessária à consecução de
ações fundamentais para a firmação da política econômica do governo.
Quando Dilma assumiu a presidência em
2010, a economia brasileira parecia promissora, dentro de um ciclo virtuoso de
crescimento contínuo do produto interno bruto, PIB, e queda do desemprego, que
já se prolongava por oito anos, de 2002 a 2010. Mas, a economia não se
sustentou e Dilma foi perdendo apoio político, até chegar a este ponto.
O impeachment
pode ser explicado por duas dimensões: a primeira é a política e a segunda
é a econômica. No âmbito político, a questão se situa na abrangência da investigação
da Operação Lava Jato, mais precisamente nos aspectos relacionados ao
financiamento de campanhas eleitorais no Brasil. Dos atuais 32 partidos
registrados no Tribunal Superior Eleitoral, 28, ou 87,7%, foram financiados,
nas eleições gerais de 2010 e 2014, por empresas acusadas pelo Ministério
Público, por envolvimento na Lava Jato. Foi quase R$ 1 bilhão em doações. O
deputado Eduardo Cunha, principal mentor do impeachment
é a favor do financiamento privado de campanha, e os números do
financiamento das duas últimas eleições ajudam a explicar a posição do
deputado: dos R$ 930 milhões - em valores atualizados pelo IPCA/IBGE -
repassados por essas empresas, R$ 660 milhões bancaram candidatos do PT, PSDB e
PMDB. O PT recebeu R$ 308 milhões (33%), o PSDB ficou com R$ 189 milhões (20%)
e o PMDB levou R$ 162 milhões (17%). Outros R$ 270 milhões (30% do total) foram
distribuídos entre outras 25 legendas partidárias.
São 47 políticos envolvidos, sendo 22
deputados, 12 senadores e 13 ex-deputados, ex-senadores e a ex-governadora do
Maranhão, Roseana Sarney; distribuídos em cinco partidos: PP (3 deputados, 18
senadores e 11 ex-deputados), PMDB (4 senadores, 2 deputados e uma
ex-governadora), PT (3 senadores, 2 deputados e um ex-deputado), PSDB e PTB,
ambos, com (um senador). Com menos de um mês do governo Temer, três ministros
caíram por envolvimento na Lava Jato – entre eles o ministro do planejamento,
Romero Jucá, o braço direito do presidente - e as últimas delações revelam a
participação de mais 35 senadores e 13 governadores, além de incluir até o
presidente interino Michel Temer na lista de corruptos da Odebrecht. Pelo menos
sete ministros de Temer foram citados na Operação: Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) - Secretaria de Governo, Henrique
Eduardo Alves (PMDB-RN) – Turismo, Mendonça Filho (DEM-PE), Educação, Raul
Jungmann (PPS-PE), Defesa, Bruno Araújo (PSDB-PE), Cidades e Ricardo Barros
(PP-PR), Saúde.
Todos
os envolvidos na Lava Jato pertencem ao Congresso e ao empresariado. Delações
e documentos comprovam que o esquema de corrupção no governo foi instituído a
setenta anos e as declarações de executivos da Odebrecht apontam que, na
empresa, ele existe há pelo menos trinta anos. Por outro lado, o paradoxo desta história está no
fato de nenhum membro do governo Dilma ter sido apontado na investigação. Sendo
assim, como afirmar que a corrupção é de responsabilidade exclusiva do PT?
Os
governos de Fernando Henrique Cardoso e Lula não foram diferentes em termos de
corrupção. Com FHC houve a emenda da reeleição e o escândalo do Banco Central,
entre outros 79 casos; o mensalão do primeiro governo Lula arrasou o governo,
entre outras dezenas de escândalos, e, agora, a Petrobras, onde o esquema
nasceu com a empresa. Porém no rótulo da bandalheira, só aparece o PT.
Uma
das razões que contribuem para a compreensão desta ideia pode estar ligada à
maneira de governar da presidenta, conhecida como “mandona”, e como já mencionei,
pouco aberta ao diálogo. Além disso, ao contrário dos seus antecessores, Dilma
não centralizou o controle do governo, o que permitiu ações setoriais, dentro
do governo, fora do controle presidencial. E foi aí que a Polícia Federal
acabou chegando ao centro desta história, que se tornou pública antes que
alguém pudesse abafar, como aconteceram tantas vezes antes.
O
comando da PF é subordinado ao Ministério da Justiça que, por sua vez, responde
à Presidência, assim, a presidente e o, então ministro José Eduardo Cardoso
poderiam ter barrado a investigação, mas em vez disso, Cardoso deixou o
Ministério e se tornou o advogado de defesa da presidenta.
O
problema é que a quantidade de políticos e empresários envolvidos, no esquema,
abala a estrutura de poder da política brasileira, de cuja sobrevivência passou
a depender a proteção de investigados e acusados, entre eles o presidente do
Senado, Renan Calheiros e o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (mais o seu
séquito). Para este objetivo, é necessário o controle total sobre a Polícia
Federal e a manipulação de informações para a opinião pública, e deste modo
manter o modus operandi. O grande problema é que a investigação mexe com toda a
estrutura de mando do Congresso, já habituado a legislar em causa própria,
sempre colocando os congressistas acima da instituição.
Para completar o desgaste da
presidenta, a economia também não favoreceu. Para consolidar o Plano Real, o governo FHC
constituiu, a partir de 1995, uma política econômica fundamentada no
endividamento. O conflito deste tipo de decisão econômica é que ele opõe os
interesses dos próprios objetivos em si. É simples: 1) o governo intuía a
redução da inflação; 2) para isto recorreu ao aumento da dívida; 3) que por sua
vez o obriga a aumentar os juros; 4) os quais freiam os investimentos
necessários ao crescimento do PIB e à melhoria do emprego.
Para segurar a inflação, em seu primeiro governo,
FHC usou a taxa de câmbio para aumentar as exportações e a taxa de juros para
reduzir a demanda. A inflação caiu, mas custou o desemprego (12% em 2002), a
queda da produção e a explosão da dívida pública. De um lado o orçamento foi
ficando cada vez mais comprometido, e do outro, a dívida externa criada pela
taxa de câmbio comprometeu as ações econômicas do segundo governo. Desse modo,
o segundo governo FHC se concentrou na administração, e tentativas de correção,
dos erros cometidos durante o primeiro mandato.
Quando Lula assumiu, em 2002, com menor dependência
externa, abriu-se o caminho para a queda da taxa de juros, com reflexos
positivos no PIB e na redução do desemprego. Para impulsionar ainda mais, Lula
usou os bancos públicos para forçar uma queda generalizada das taxas de juros
no país. Como resultado, durante oito anos, a economia apresentou taxas
crescentes de crescimento do PIB e aumento constante do emprego. Porém, se
tratava de um crescimento sustentado pelo crédito, ou seja, agora, pelo
endividamento geral: público e privado.
Ao tomar posse, em 2010, a presidenta Dilma
Rousseff encontrou o melhor cenário econômico em dezesseis anos: inflação
controlada, juros em queda, câmbio equilibrado, PIB em alta e desemprego em
queda. Mas a trajetória de equilíbrio se desfez ao longo de seu primeiro
mandato: o principal instrumento da política econômica, a taxa de juros teve
sua trajetória modificada e voltou a subir, repercutindo na queda do PIB e no
aumento do desemprego.
As
razões econômicas da crise econômica se alicerçam no desequilíbrio entre as
receitas e as despesas do governo, uma doença que se arrasta há décadas e que,
durante a execução da política econômica, nenhum governo se mostrou capaz de
debelar até atingir as metas fiscais propostas necessários ao controle total da
economia.
Ainda
que a inflação tenha sido controlada, a sua verdadeira causa jamais fora tratada
de forma responsável. Todos os governos se detiveram à manutenção do equilíbrio
conjuntural, ou seja, momentâneo, em desprezo dos objetivos essenciais ao longo
prazo. E, para agravar a situação, os gastos públicos que vinham aumentando
acima das taxas de crescimento do PIB, tornaram-se ainda mais ameaçadores
quando o PIB começou a retroceder a partir de 2010 causando queda na
arrecadação.
Sem equilíbrio nas contas, com os gastos em alta e
a arrecadação em queda, as economias do governo para pagar os juros foram se
tornando menores, passando a serem insuficientes em 2013. Isto quer dizer que o
governo se mostrou incapaz de pagar os juros da dívida, projetada para R$ 3,3
trilhões em 2016. Durante todo o primeiro governo Dilma, foram pagos R$ 943
bilhões de juros, quantia inferior ao R$ 1,2 trilhão pago por FHC. O inferno
econômico da presidenta começou quando ela optou por reduzir o pagamento dos
juros.
Logo após a
posse, Michel Temer, divulgou um texto, chamado “A travessia social”, composto
por 17 páginas que, além de tratar os temas Educação, Saúde, Corrupção,
Benefícios Sociais e Economia, faz um diagnóstico sobre os motivos que levaram
o país à crise política e à recessão. A ideia da gestão Temer é focar em
concessões e parcerias público-privadas, buscando “um ambiente melhor” com a
iniciativa privada para investimentos. Os investimentos privados são
considerados, no documento, fundamentais para ajudar a resolver “a maior crise
da História”.
No texto, além de se comprometer com a manutenção
da Operação Lava-Jato, Temer propõe a aprovação de uma lei que responsabilize
de forma mais rígida e clara os dirigentes das estatais. O PMDB se compromete,
também, a garantir recursos para a Polícia Federal e a Receita Federal
continuarem trabalhando “no combate ao crime”. “As lições que estamos vivendo
hoje nos obrigam a buscar a reengenharia das relações do Estado com o setor
privado e reduzir ao mínimo as margens para a transgressão e o ilícito. A
obrigação de qualquer governo responsável é responder a esta demanda da
sociedade com uma nova postura ética”. O contraditório disso é que Temer e o
seu PMDB apoiam a manutenção do financiamento privado de campanha, além disso,
Temer nomeou sete ministros citados na Lava Jato e, é aliado de Eduardo Cunha.
Na área social, Temer reitera a manutenção de todos
os programas criados nas gestões petistas, como Bolsa Família, Pronatec e Minha
Casa, Minha Vida. Prometeu controle sobre a inflação, que não para de crescer,
e o crescimento da economia. E como seus antecessores, falam em ajuste fiscal a
todo tempo.
Paradoxalmente ao discurso, o governo Temer ampliou
de R$ 96 bilhões para R$ 170 bilhões, o déficit herdado de Dilma, em seguida
fez concessões de mais R$ 50 bilhões em benefícios aos Estados em dificuldades
orçamentárias, e liberou outros R$ 75 bilhões em aumentos salariais. Suspendeu,
até dezembro, o pagamento das parcelas devidas por parte dos estados e ainda
ampliou em vinte anos o prazo para pagamentos das dívidas estaduais. Os gastos
não planejados, do governo Temer, já ultrapassam R$ 300 bilhões.
Para 2016, o orçamento federal é de R$ 1,180
trilhão, e prevê R$ 470 bilhões para o pagamento de juros, outros R$ 350 bilhões
para a Previdência, mais R$ 290 bilhões para a folha de pagamento (somando R$
1,110 trilhão), ficando os R$ 70 bilhões restantes para investimentos e
imprevistos.
Dilma deixou o governo com um déficit de R$ 96
bilhões, Temer aumentou para R$ 170 no primeiro mês. Temer se comprometeu com o
combate à corrupção, mas nomeou sete ministros envolvidos na Lava Jato. Temer
defende o equilíbrio fiscal, mas aumentou o gasto em R$ 300 bilhões em menos de
um mês de governo, o que aumenta a margem de corte da ordem de R$ 300 para R$
500 bilhões.
O controle desta situação depende da manutenção da
confiança na capacidade de pagamento do governo, o que deve durar enquanto
Temer executar o seu plano de privatização, idêntico ao de FHC. Pelos cálculos do jornal Folha de São
Paulo, as privatizações realizadas até 1999 teriam rendido ao governo federal
US$ 56,171 bilhões, contra um patrimônio líquido total estimado em US$ 38,305
bilhões. O volume sobre o patrimônio líquido das empresas privatizadas foi de
apenas US$ 17,865 bilhões. Já o montante de benefícios concedidos aos
compradores, de diversas formas, foi de US$ 45,168 bilhões: foram US$ 15,919
bilhões em créditos tributários; US$ 8,958 bilhões de “moedas podres” (dívidas
do governo em poder dos bancos, como o nome diz, não tinham quase nenhum valor
de mercado); e US$ 20,289 bilhões em financiamentos concedidos antes e depois
das privatizações. Ao final das contas, a constatação é a de que o governo trocou
U$ 83,473 bilhões (U$ 38.305 + U$ 45,168) por US$ 56,171 bilhões. Em outras
palavras, o governo doou as empresas e, ainda, pagou aos compradores U$ 27,303
bilhões.
Quando
passar a euforia do impeachment e
Temer se tornar “presidente”, quando passarem as privatizações, a dívida vai
permanecer, o patrimônio privatizável terá se esvaído e só restará um caminho:
o calote.
Se
Dilma continuar no governo as coisas não serão muito diferentes, pois diante da
insustentabilidade da dívida, em algum momento o calote vai chegar: a diferença
é que com Dilma ele viria mais cedo e os estragos seriam distribuídos, para
todos os setores. Com Temer ele será
retardado a fim de concentrar os danos nos setores trabalhista e
previdenciários, diminuindo os prejuízos do setor financeiro.
O
orçamento do governo é de R$ 1,180 Trilhão, os gastos de R$ 1,6 trilhão e as
dívidas chegam a R$ 3,3 trilhões. Nos vinte anos entre 1995 e 2015 o governo
gastou R$ 3,446 trilhões com o pagamento de juros.
Em
economia, na prática a teoria é outra.
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