A crise econômica brasileira,
que vem se aprofundando, cada vez mais, acentua a necessidade da adoção de
medidas capazes de surtir efeito na estrutura de gastos do governo. Além disso,
o problema fiscal, não se restringe ao governo federal, ele vem se apresentando,
também, em estados e municípios que perderam, ou estão perdendo a capacidade de
prover serviços básicos. Logo após a posse, em maio, o governo de Michel Temer
negociou e fez concessões aos estados: suspendeu pagamentos de parcelas das
dívidas estaduais, reduziu os juros e ampliou os prazos de amortização, mas,
diante do déficit fiscal, anunciado nos primeiros dias de mandato, o governo
está impossibilitado de socorrer financeiramente os estados.
O desequilíbrio fiscal, em escala
generalizada, põe o Brasil diante da difícil tarefa de afastar o fantasma da
inflação, manter o valor do Real e, daí, retomar o crescimento da economia.
Mas, antes disso, é imprescindível que todas as esferas de governo – municipal,
estadual e federal – ponham as contas em ordem, o que exigiria grandes
sacrifícios.
O real foi criado
depois de sucessivas experiências, malsucedidas, com moedas que duravam menos
de um ano, corroídas pela inflação descontrolada, que caracterizou a economia
brasileira até a primeira metade da década de 1990. As raízes da inflação
sempre estiveram ligadas ao excesso dos gastos públicos, cuja tentativa de
solução ficou limitada à Lei de Responsabilidade Fiscal. A LRF limitou as
execuções de gastos sem a devida dotação orçamentária como aconteciam antes,
quando os prefeitos, os governadores e o executivo federal contratavam obras
sem ter a origem do recurso para pagamento. A crise que se materializa na recessão da
economia brasileira, e na ameaça da inflação, tem suas raízes na constituição
da sua moeda.
Qual a origem do
dinheiro? Por que o valor do dinheiro varia no tempo? Por que o Real pode estar
ameaçado? Para o economista austríaco Ludwin Von Mises, o dinheiro deve surgir
espontaneamente em um processo de livre mercado. O escambo, utilizado desde os
primórdios, possui pelo menos duas grandes restrições: a primeira é a
necessidade de coincidência de desejos entre os negociantes, em que as relações
comerciais dependem do interesse de cada um pelo produto do outro; a segunda é
a indivisibilidade, o que significa a necessidade de divisibilidade, do meio de
troca, a fim proporcionar a igualdade de valor às coisas no mercado.
A adoção do papel
moeda elimina estas restrições. Os comerciantes, primórdios, foram percebendo
que a adoção de uma moeda-padrão, eliminava a necessidade de um produtor de
laranjas - que desejasse peixes – encontrar um pescador que estivesse
interessado em suas laranjas. Ele podia vendê-las e usar a moeda em circulação
para comprar o que bem desejasse, e isto facilitava, em muito, os negócios.
Para atender à função monetária, a mercadoria usada como moeda deveria ser divisível,
durável, homogênea, transferível, possuir
facilidade de manuseio e transporte e
ter aceitação geral.
Ao longo da história,
várias mercadorias foram usadas como moeda, mas, o ouro e a prata, foram,
invariavelmente, as mais usadas. Os reis cunhavam moedas com suas efígies, para
garantir o peso e o valor, e depois cobravam a senhoriagem da moeda.
Posteriormente surgiram as fraudes em relação ao peso das moedas, isto é, as
moedas eram emitidas com valores intrínsecos inferiores aos declarados, enquanto
o governo do rei embolsava a diferença, causando prejuízos aos recebedores da moeda:
era o início do imposto inflacionário, ou do uso de artimanhas para
desvalorizar a moeda, em benefício do governo. Este estratagema foi bastante
facilitado com a adoção do papel moeda. É importante saber que todas as moedas
importantes do mundo, como o dólar (americano), a libra esterlina (inglesa), o
marco (alemão) e o franco (francês), entre outras, surgiram como nomes para
unidades, de pesos diferentes, de moedas em ouro e prata.
O dólar surgiu como
denominação da moeda de prata cunhada por
um condado chamado Schlick, no século XVI. Suas
moedas - chamadas thalers
- possuíam reputação abrangente, e deram origem
ao termo dólar. O qual significava, apenas, o nome da unidade de peso da moeda
à que representava. E no século XX, em
especial no período subsequente à Segunda Guerra, o dólar era lastreado pelo
padrão-ouro.
A falsificação do
valor da moeda é altamente lucrativa para quem a faz e enriquece os primeiros a
receber o dinheiro falsificado, mas causa sérios prejuízos aos últimos que o
receberem. Assim, o papel do governo, através do banco central, consiste,
exatamente, em garantir a segurança do valor da moeda contra falsificações. O
problema se inicia quando o próprio governo se vale do respaldo da lei para
produzir dinheiro e falsear o valor da moeda.
A origem do dinheiro que conhecemos
O primeiro papel moeda,
do Ocidente, foi emitido no ano de 1690, na província de Massachusetts, e sua
origem ilustra muito bem como o governo ganha com a desvalorização da moeda.
Massachusetts estava acostumada a periódicas expedições militares contra a
Quebec francesa, e os ataques, normalmente, bem-sucedidos permitiam o pagamento
dos soldados com os bens da pilhagem obtida. Porém, certa vez, a expedição
sofreu grande derrota, e os soldados retornaram para Boston descontentes e sem
pagamento. Para solucionar o problema, o governo emitiu sete mil libras em
papel e distribuiu aos soldados, com a garantia de que tais notas seriam
resgatadas por ouro ou prata em pouco tempo, mas no ano seguinte o governo
declarou que não possuía o ouro para lastrear o dinheiro e ainda imprimiu mais
quarenta mil para pagar dívidas anteriores. Além disso, as notas não poderiam
ser resgatadas antes de quarenta anos, o que obrigava o mercado a aceitar e
fazer este dinheiro circular.
A história funciona
assim: no início, o governo garantiu que os pedaços de papel são resgatáveis em
seu equivalente em ouro. Caso contrário, ninguém iria aceitá-los
voluntariamente. Os detentores destes papéis começam a negociá-los, em busca de
“dinheiro de verdade”, o que os transforma em mercadoria, cujo valor seria
garantido pelo ouro do governo. Em seguida, o governo começou a sustentar seu
papel-moeda por uma legislação coercitiva, que obriga o público a aceitá-lo –
inclusive os seus credores. O papel-moeda passa a ser aceito para pagamento dos
impostos, e os contratos privados são forçados a aceitar pagamento em papel,
sem nenhum lastro. Quando a moeda começa a ser amplamente aceita e utilizada, o
governo começa, então, a produzir dinheiro para financiar gastos públicos.
Após um tempo, o governo
adota o último passo: corta o vínculo da moeda com o ouro que ela deveria representar,
e o valor expresso no papel moeda fica, absolutamente, sem nenhuma garantia. O
dólar, por exemplo, passa a ter vida própria e independente do ouro que ele
representava anteriormente, enquanto o ouro passa a ser apenas uma mercadoria.
Assim, com uma moeda
sem lastro, toda vez que o governo precisar, ele pode fabricar dinheiro e
gastar. A partir daí, o caminho para a inflação está totalmente livre de
obstáculos. E mais: ao deter o monopólio legal e coercitivo de emissão da
moeda, o governo passa a usar os juros para manipular a circulação do dinheiro.
Com isto o caminho dos juros também é aberto, e com ele o terreno para a
geração de dívidas. O governo pode aumentar a taxa de juros para obter
empréstimos do mercado.
O Real e a criação de falsa riqueza
As moedas adotadas,
antes do Real eram falsificadas, a partir do processo de fabricação, descrito
anteriormente, em que o governo emite moeda, de forma descontrolada, para
cobrir gastos. A partir do Real, o Brasil abandonou a fabricação, desenfreada,
de moeda. Mas, como as contas permaneceram no vermelho, o governo precisava de
outro meio de financiamento do excesso de despesas. Lembre-se de que o governo
detém o monopólio sobre o dinheiro, inclusive sobre a determinação da taxa de
juros. Assim, sem receitas suficientes para cobrir os gastos, a política do
Real se fundamentou no endividamento. Com o uso da taxa de juros, o orçamentou
federal passou a ser financiado à base de empréstimos para cobrir os déficits.
Deste modo, sempre que o governo precisa tomar dinheiro emprestado, ele aumenta
a taxa de juros. Mas, sem colocar as
contas em ordem, o governo entrou em um processo, contínuo de endividamento, ao
ponto de não conseguir pagar os juros devidos anualmente.
A parcela dos juros,
que não é paga no período, vem sendo, ano após ano, incorporada ao capital,
aumentando a dívida, e, portanto, os juros incidentes sobre ela. Isto criou um
vício sem controle no crescimento da dívida – aquela que o governo deve dentro
do mercado nacional, sendo que a maior parte está concentrada nas mãos dos
maiores bancos do país. O problema da Dívida Pública vai além do travamento do
orçamento e dos limites que ela impõe às ações, por parte do governo, no âmbito
econômico. Ele se espraia por todos os agentes econômicos e compromete todo o
funcionamento da economia. O primeiro a ser atingido é o investimento público,
que fica reduzido em função da necessidade de economia para o pagamento de
parte dos juros. Além disso, a dívida obriga o governo a manter a taxa de juros
(Selic) em níveis mais altos que o resto do mundo, caso contrário, o mercado
não lhe empresta. Isto eleva todas as taxas de juros, encarecendo o crédito e o
investimento.
Sem os investimentos
do governo, para empurrar a economia, e com o crédito dificultado pela taxa de
juros, a tendência, natural, é de queda da atividade econômica, como vem
acontecendo no Brasil. No limite, este crescimento se torna nulo, depois
negativo e daí a recessão: quando o Produto Interno Bruto (PIB) vai diminuindo
ao longo do tempo, enquanto o desemprego vai aumentando, como temos visto
acontecer com a economia brasileira.
Já descrevi,
anteriormente, como o governo falsifica o dinheiro, inicialmente fraudando o peso
das moedas de prata e ouro e mais tarde pela fabricação de moeda sem lastro.
Mas, no caso do endividamento, acaba-se dando aos credores, o direito sobre uma
riqueza que o governo supõe que um dia terá. É simples: se o governo for
obrigado a pagar tudo o que deve, não haverá dinheiro suficiente no país. Em
outras palavras, o Brasil possui bem menos riqueza do que pensa possuir, o que
o torna um devedor insolvente.
Se por um lado, a
política econômica do Real optou pelo abandono da prática de criação de
inflação, pelo próprio governo; por outro, iniciou um ciclo de criação de falsa
riqueza. Pense que os títulos do governo - em poder do mercado, em especial dos
bancos - representam montanhas de dinheiro, de riquezas que, simplesmente, não
existem, mas que se multiplicam com a incidência dos juros.
A teoria econômica em
geral recomenda que em momentos de recessão, o governo deve assumir o papel de
condutor do crescimento, com investimentos estratégicos, fomentos de estímulos
ao consumo. Mas a proposta do governo é de redução dos investimentos
governamentais em todos os setores; não menciona nenhuma medida de subsídio aos
setores mais importantes, tampouco àqueles menores, que compõem grandes bolsões
de emprego, dentro da economia. E diante da situação, se o governo conseguir
zerar o déficit, pagando os juros, as taxas gerais só voltariam a cair no muito
longo prazo.
O investimento do
governo e a queda da taxa de juros são fundamentais para a volta do crescimento
da economia, cuja previsão é de queda de 3,3% em 2016, e aumento de 1,7% em
2017. As questões são: de onde virá o impulso? Como o investimento será
estimulado? E diante da recessão e o aumento do desemprego, como o governo
pretende aumentar a demanda, e acionar o consumo da população, a favor do
investimento? São perguntas essenciais, que dependem de respostas à altura do
problema.
Mas, existe, ainda,
outro ponto que merece cuidado, para não se transformar em um problema maior. Trata-se
do desequilíbrio externo, com déficit de U$ 58 bilhões em 2015 e outros U$ 19,
acumulados nas exportações deste ano. As reservas do país, de U$ 376 bilhões são
superiores à dívida externa total de U$ 338 bilhões, o que permite o equilíbrio
da taxa de câmbio, sem oferecer riscos à política cambial. Porém, este
equilíbrio depende da manutenção da confiança externa no país, para evitar
saídas repentinas de dólares, o que levaria ao aumento da taxa de câmbio. Para manter
a confiança é imprescindível que as previsões do governo se cumpram no campo econômico.
A inflação poderá
retornar ao centro da meta, como o Banco Central anunciou recentemente, devido à
recessão e o desemprego de agora. Mas falta explicar como o PIB vai sair de uma
queda de 3,3%, este ano, para um aumento de 1,7% em 2017, uma vez que as
políticas adotadas nas áreas monetária e fiscal, são amplamente recessivas. Falta
explicar, também, como será obtido o ajuste fiscal, se o governo enxerga, apenas
a limitação do teto de gastos e a privatização, como saídas para o problema. Um
teto para os gastos é essencial, mas seu efeito vem ao longo de muito tempo, enquanto
a situação brasileira está na emergência. Já o programa de privatizações, estimado
em R$ 30 bilhões representa 10%, dos R$ 300, de que o governo precisa.
Mas, como descrito,
anteriormente, a moeda se sustenta enquanto as pessoas acreditam naquilo que o
governo diz; o problema é que o governo diz, apenas, aquilo que interessa ao partido
governante.

Nenhum comentário:
Postar um comentário