O processo de privatização trata da
transferência de bens, de propriedade do setor público, ao setor privado. Ele
foi iniciado, na década de 1980 no Brasil, intensificado nos anos 1990 e está
de volta à pauta do governo, em 2016. Seus defensores argumentam que nas mãos
da administração privada, estas empresas contribuem mais para o desenvolvimento
do país. Por outro lado, os desfavoráveis à privatização acusam que este
processo acentua outro: o da terceirização da economia.
As empresas estatais brasileiras
surgiram a partir do movimento de substituição de importações, iniciado na
década de 1950, a fim de criar um parque industrial nacional e reduzir o peso
das importações sobre o abastecimento interno. Foi assim que, na década
seguinte, foram criadas empresas, com grandes investimentos, em setores
estratégicos como energia, siderurgia, mineração, comunicação e transportes. A
injeção de dinheiro do governo foi fundamental para a construção dessas
empresas, dado que o empresariado nacional não dispunha de capacidade para a
escala dos investimentos. Assim, o projeto de substituição de importações,
financiado inteiramente pelo governo, exigiu grandes sacrifícios de toda a
nação.
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| O ex-presidente americano, Ronald Reagan e a primeira-ministra britânica, Margareth Thatcher, precursores do neoliberalismo. |
A partir dos anos 1990, o governo,
apoiado no argumento de que as estatais estavam defasadas tecnologicamente e
sem capacidade de investimento em inovação, executou o Plano Nacional de
Desestatização, PND, que resultou na venda de mais de cem empresas.
Mas, além deste argumento, existem
outras razões que explicam o processo de privatização brasileiro, e suas raízes
na ordem econômica internacional. A partir do final da década de 1970, a
palavra privatização passou a aparecer, com destaque, no discurso político pelo
mundo afora. A Crise do Petróleo, que se desenrolou entre 1973 e 1979 criou o
ambiente para as mudanças econômicas que reorientaram a economia mundial a
partir da década de 1980.
Os preços, durante a crise, provocaram
uma sangria de dólares do mundo para os países filiados à OPEP - Organização
dos Países Produtores de Petróleo – os quais tiveram um acúmulo monumental de
dinheiro, os chamados “petrodólares”, que se somaram aos “eurodólares”, ou o
dinheiro que havia sido transferido, anteriormente, pelos Estados Unidos para a
reconstrução da Europa após a Segunda Guerra. Ao final da crise, em 1979, a primeira-ministra
da Inglaterra, Margareth Thatcher, buscando
tirar proveito desta situação, baixou medidas de liberalização da entrada e
saída de capital internacional em território inglês, o que significa o abandono
do controle exercido até então. Com esta nova forma de tratamento, e maior
acesso ao dinheiro internacional, a Inglaterra, privatizou, investiu e
estabeleceu reformas trabalhistas. Porém, é importante lembrar de que o governo
inglês não adotou estas medidas com a finalidade de pagar contas, mas de
reduzir o tamanho do Estado.
O sucesso alcançado pela Inglaterra despertou
interesses, e suas práticas foram seguidas pelos Estados Unidos em 1980, com
Ronald Reagan, pelo chanceler Helmut Kolh da Alemanha em 1982, e por Schullter
na Dinamarca em 1983, e daí se espraiando pelo mundo. Nesta fase a palavra Neoliberalismo
entrou em voga, como denominação de uma nova etapa do capitalismo, em que o sistema financeiro assume o
papel de protagonista do sistema. O capitalismo financeiro, também conhecido
como Capitalismo Monopolista – é
a caracterização do capitalismo pelo crescimento da especulação financeira em
torno de ações de empresas, juros, títulos de dívidas e outras formas de
crédito que se transformaram em mercadorias, sendo comercializadas como tais.
Em cada momento da história econômica, o pensamento
liberal capitalista exerceu papel importante sobre os governos. De acordo com o
foco de cada momento, podemos dividi-lo em cinco estágios. Em cada um deles, o
que se define é o papel do Estado, portanto, o que se modifica, de um para o
outro, é a relação entre o Estado e a sociedade. No primeiro estágio o
liberalismo representou um conjunto de ideias e práticas políticas que visavam
assegurar aos cidadãos os direitos básicos e exigir dos governantes o respeito
mínimo da vontade popular.
Em seu segundo estágio, voltou-se para a esfera
econômica, com forte oposição a intervenção do poder do rei na economia e
incentivo à livre iniciativa, com a adoção da política do livre mercado. Já no
terceiro estágio, foram desencadeadas melhorias no Estado: direito universal de
voto, incentivo aos sindicatos de trabalhadores, liberdade de confissão
religiosa e a separação entre Estado e igreja.
A quarta fase resultou de uma profunda crise gerada
dentro do próprio capitalismo. As causas mais evidentes foram a quebra da bolsa
de Nova Iorque, na década de 1930, com o entendimento de que a política do livre mercado precisava ser
corrigida. Muitos países, como a Alemanha, procuraram a saída no totalitarismo
de Estado. A revisão do liberalismo deu-se através da retomada da
intervenção do Estado na economia; já o neoliberalismo prega a ausência de
controles por parte do Estado e a redução da participação do governo na
economia.
No Brasil, o neoliberalismo se
apresentou no final dos anos 1980, através da abertura econômica, iniciada pelo
governo de Fernando Collor de Mello. Mas foi a partir de 1994, no governo de
Itamar Franco, que as políticas liberalizantes começaram a ser adotadas.
As privatizações no Brasil têm origem no Consenso de Washington, realizado
em 1989, que apresentava uma série de recomendações, para a condução econômica,
que funcionaram como meio de pressão internacional para a adoção do neoliberalismo,
especialmente pelos países subdesenvolvidos. Desse modo, orientadas pelo Fundo
Monetário Internacional, FMI, as diretrizes do Consenso foram difundidas, e
serviram de base para as privatizações brasileiras.
Neste ponto, é importante entender o papel do FMI no
mundo. O FMI é uma organização internacional, criada em 1944, na Conferência de Bretton Woods, por 29 países-membros e homologado
pela ONU em abril de 1964, com o objetivo, inicial, de gerir a transferência de
dinheiro dos Estados Unidos para o financiamento da reconstrução da Europa e do
sistema monetário internacional no período que seguiu a Segunda Guerra Mundial. Os países contribuem com dinheiro
para o fundo através de um sistema de quotas a partir das quais os membros com
desequilíbrios, na balança comercial, podem pedir empréstimos. Através da
vigilância das economias dos seus membros e da recomendação de políticas de autocorreção,
o FMI institui receitas econômicas, para os seus devedores.
Na conferência de Bretton Woods, que estabeleceu o
acordo, os EUA eram a única nação capaz de financiar a reconstrução, com isso,
conseguiram impor seus interesses às demais nações e criou a oportunidade para
a adoção do dólar, como padrão monetário do mundo. Porém, para que uma moeda
papel, sem lastro, como o dólar, possa circular pelo mundo, sem provocar
crises, é necessária a manutenção do equilíbrio das taxas de câmbio com as
moedas nacionais. E isto depende do equilíbrio econômico interno, o qual se
relaciona, em grande medida, ao equilíbrio das contas dos governos nacionais.
O FMI surgiu para perseguir o equilíbrio econômico das
economias nacionais, para que nenhum desequilíbrio regional interfira no
equilíbrio mundial. Seu principal objetivo é o de manter a liquidez
internacional dos países. Em outras palavras, significa garantir que cada país
terá reservas, em dólar, em volume suficiente para honrar seus compromissos
externos.
Simplificando: primeiro o dólar era apenas a moeda
americana, regulada pelo Federal Reserve, o banco central daquele país; depois
foi imposto como moeda mundial. Em 2016, o FMI congrega 188 países-membros; todos
aceitam o dólar e, seus bancos centrais mantêm reservas nesta moeda. Mas para
isto funcionar, é fundamental que haja um banco, acima dos bancos centrais,
para socorrê-los em caso de falta de dólares no país. É aí que entra o FMI:
como orientador das políticas cambiais, portanto, monetárias de cada país. O FMI
funciona como um braço internacional do banco central dos EUA, para manter a
estabilidade do dólar no mundo.
O Brasil possui reservas de U$ 378 bilhões e a dívida
externa total – pública e privada – é de U$ 338 bilhões; a política monetária
está amarrada à Dívida Pública, e, somam-se, a este cenário, os dois déficits: fiscal
e da balança comercial. Neste caso, a receita do Fundo Monetário se baseia na
redução dos gastos públicos, em outras palavras, privatizar.
As privatizações do período de 1995 a 2005 renderam R$ 95 bilhões,
mas para vender suas empresas, avaliadas em R$ 38 bilhões, o governo fez várias
concessões; o montante de benefícios concedidos aos compradores, de diversas
formas, foi de US$ 45,168 bilhões: foram US$ 15,919 bilhões em créditos tributários;
US$ 8,958 bilhões de “moedas podres” (dívidas do governo em poder dos bancos,
como o nome diz, não tinham quase nenhum valor de mercado); e US$ 20,289
bilhões em financiamentos concedidos antes e depois das privatizações. Ao final
das contas, a constatação é a de que o governo doou as empresas e, ainda, pagou
aos compradores.
Em 2005 o Brasil liquidou a dívida com o FMI e se livrou das
exigências da instituição; quatro anos depois,
se tornou emprestador. Agora, em 2016, pelo menos quatro motivos obrigam o país
voltar a bater às portas do Fundo: a sustentação da dívida pública, o déficit
público, o déficit da balança comercial e a manutenção do valor do Real.
No centro da privatização está a minimização dos gastos com a
folha salarial, uma vez que o número excessivo de funcionários é diminuído e,
sempre que possível, os cargos passam a ser terceirizados. Entre 1995 e 2005, o
número de empregados em empresas privatizadas nesse período caiu de 95.000 para
28.000 trabalhadores, uma queda superior a 70%. Enquanto isso, nessas mesmas empresas,
a lucratividade deslocou-se de 11 bilhões de reais para 110 bilhões de reais,
um aumento de 900%.
Outros países, como Argentina, Venezuela, Equador e Bolívia
enfrentaram crises e recessões econômicas, decorrentes da perda de controle de
suas dívidas. A Argentina esperou até o colapso, antes de agir, em 2001; já a
Venezuela e o Equador decidiram fazer auditorias das suas dívidas, e acabaram
descobrindo que a maior parte delas não existia, mas se tratava de dívidas
prescritas ou de esquemas de corrupção. No Brasil, a ex-presidenta, Dilma
Rousseff, se recusou a promover a auditoria da dívida, e o governo de Michel
Temer apresentou o plano de privatização.
A privatização pode causar efeitos positivos na economia, quando
os recursos obtidos são destinados ao pagamento de parte do capital da dívida a
fim de reduzir a incidência de juros, e favorecer a capacidade de investimento
do governo, na economia. Porém, o programa apresentado pelo governo brasileiro
está associado à necessidade de provisão de dinheiro para paliar o desejo dos
seus credores, insatisfeitos com o não-recebimento dos juros integrais, devidos
anualmente.
Nos vinte anos entre 1995 e 2015 o Brasil pagou R$ 3,4 trilhões de
juros, a dívida atinge R$ 3,3 trilhões e os juros comprometem 40% do orçamento.
A privatização, anunciada pelo governo, de R$ 30 bilhões, corresponde a 6% dos
juros devidos este ano.
As dúvidas são: depois de privatizar o que resta, qual será o
próximo passo? Como o governo vai continuar sustentando a dívida? A dívida já
se tornou, ou pode se tornar um fardo, impossível de ser sustentado? O peso e o
custo dos juros podem gerar um repúdio geral à dívida, e obrigar o calote por
parte do governo?



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