A base, aliada do governo na Câmara Federal,
aprovou, na última quarta-feira, o projeto que põe fim à obrigatoriedade da
Petrobras ser sócia e operadora, única, do Pré-Sal. Foram 292 votos favoráveis
e 101 contrários, mais uma abstenção. Este projeto está entre as prioridades da
agenda do governo, o qual nutre a expectativa de aumentar os investimentos no
setor petrolífero, de U$ 20 bilhões para U$ 50 bilhões anuais. A Petrobras
deixa de ser a operadora, exclusiva, do Pré-Sal, e perde a incumbência de
procurar petróleo, avaliar áreas e perfurar poços em águas profundas.
A história da exploração de petróleo no Brasil teve
início em 1892. Naquele ano, o fazendeiro Eugênio Ferreira de Camargo se
aventurou na perfuração do primeiro poço em busca de petróleo em sua fazenda na
cidade de Bofete (interior do estado de São Paulo). Mas não obteve sucesso, do
poço de 488 metros de profundidade jorrou, apenas, água sulfurosa. Mais tarde,
com a criação do Conselho Nacional de Petróleo (CNP), em 1938, é que o assunto
passou a ser tratado como uma questão de Estado. Em seguida, em 1939, no bairro
de Lobato, (em Salvador-BA), foi descoberta a primeira jazida de petróleo
explorável, a qual deu início à exploração comercial brasileira. Uma década
depois, no ano de 1948 foi criado o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, com
o objetivo de planejar e executar a campanha "O petróleo é nosso".
Em 1949 entrou em operação, na região do Recôncavo
Baiano, o primeiro oleoduto brasileiro, e em 1950 foi instalada a refinaria Landulfo
Alves no município de Mataripe, também na Bahia. E, naquele mesmo ano o
primeiro navio-petroleiro, do Brasil começou a operar.
Mas a grande virada viria em 3 de outubro de 1953 com
a fundação da Petrobrás, uma empresa estatal, com o monopólio, legal, na
extração e refino do petróleo em território nacional. Desde então, a empresa concentrou
todas as operações do setor de petróleo, gás e combustíveis em geral, como o de
biocombustíveis. É conhecida como uma organização que possui assimetria em
tecnologia, o que significa o monopólio de conhecimento. Em 1968 a Petrobrás
fez a primeira descoberta de petróleo no mar, no campo de Guaricema, no Estado
de Sergipe. Foi o começo de um longo processo - de investimentos e pesquisas -
que a levou ao domínio mundial da tecnologia de pesquisa, perfuração e
exploração em águas profundas.
Argumentando a necessidade de garantia da
suficiência de petróleo e gás, o governo adotou, na década de 1990, a estratégia
de internacionalização da empresa. Esta expansão foi financiada pela formação
de uma Joint Venture, na África, para viabilizar a exploração do campo de
Egina, na Nigéria, que exigiria investimentos da ordem de US$ 3 bilhões. Uma
Joint Venture é a reunião de empresas de setores diferentes, para iniciar um
negócio em outro setor. Sem possibilidade de captar recursos deste montante,
via novo financiamento no mercado, a empresa convidou o banco BTG Pactual para
entrar no negócio, que foi lucrativo para a empresa. Em 1997 o governo, de
Fernando Henrique Cardoso, sancionou a lei que quebra o monopólio da Petrobrás
na exploração do petróleo no Brasil, e abriu as portas da pesquisa no subsolo
às empresas estrangeiras.
Em seguida, com a descoberta do Pré-Sal, os investimentos
se intensificaram, e com eles, em 2006, no governo de Luiz Inácio Lula da
Silva, é alcançada a autossuficiência em petróleo. Em janeiro de 2009 começou a
operar a plataforma de petróleo da Petrobrás, a P-51, a primeira construída
integralmente no Brasil.
Para chegar ao Pré-Sal, a Petrobrás, em outubro de
2014, começou a explorar um poço - o Iracema Sul, que tem 2.200 metros entre a
superfície e o fundo do mar. Para se chegar ao petróleo propriamente dito, foi
preciso perfurar mais 1.400 metros na areia e outros 1.700 metros na camada de
sal, onde ele foi encontrado a 5.300 metros, abaixo da superfície. São números
importantes e que renderam nas últimas décadas à empresa um reconhecimento
internacional.
Em 2015, a Petrobras foi premiada, pela terceira
vez com o prêmio OTC - Distinguished
Achievement Award for Companies, Organizations, and Institutions, em um
evento do setor, realizado nos Estados Unidos. A premiação é para o
conhecimento tecnológico exigido para exploração da área do Pré-sal.
O Pré-sal sempre foi tratado como um caminho
estratégico para a empresa. Com a sua descoberta, a Petrobras montou um plano,
que corresponde a uma segunda empresa, com 20 plataformas, 47 embarcações, 3
navios e 13 helicópteros. Simultaneamente, houve pesados investimentos nas mais
avançadas tecnologias, como as boias que tiram o peso dos tubos gigantescos, e
pesados - que ligam as plataformas aos poços no fundo do mar - e a redução do
custo de perfuração de novos poços.
Com tantas descobertas, as ações da Petrobras, na
Bolsa de Valores, foram se valorizando e a empresa chegou a U$ 190 bilhões em
valor de mercado. E isto favoreceu a obtenção de recursos para financiar os
novos projetos; como a captação de R$ 120 bilhões, em debêntures, feita em
2010. A diferença entre a venda de ações e a de debêntures é de que na primeira
o risco é do comprador, que fica suscetível à variação do valor da ação na
bolsa; já na emissão de debêntures, a empresa oferece o seu próprio patrimônio
como garantia aos investidores, em outras palavras, ela assume o risco sozinha.
Com o crescimento, para operar a nova estrutura, a
empresa e suas subsidiárias subiram de 198,9 mil funcionários, em 2004, para
446,3 mil trabalhadores, em 2013. Com a Lava Jato, mais de 170 mil foram demitidos,
e atualmente restam menos de 80 mil empregados.
As descobertas e as projeções do Pré-Sal levaram às
discussões, acirradas, sobre a questão do petróleo brasileiro, em especial
sobre os regimes de exploração e o de distribuição dos royalties projetados. Os regimes de exploração mais usados são o de
partilha e o de concessão. Pela regra de partilha, criada pelo governo, Lula,
em vigência desde 2010 para a exploração dos campos do Pré-Sal, o Estado
brasileiro é proprietário do petróleo, cabendo à empresa privada explorar e
extrair o petróleo, às suas custas, em troca de uma parte de petróleo extraído.
As reservas que não são extraídas continuam propriedade do Estado. Nesse caso,
a empresa, que entrar na exploração, é a única a explorar e assume todos os
custos e riscos da operação. Como não tem qualquer direito de indenização por
parte do Estado, caso o campo pesquisado não proporcionar lucros, o explorador,
assume custos e riscos, sem a participação do governo.
O governo, de Michel Temer, mobilizou sua base de
apoio, e aprovou na Câmara, o projeto do senador, e agora ministro das relações
exteriores, José Serra, mudando o regime de partilha – adotado por Lula - para
o regime de concessão. Neste caso, a Petrobrás deixa de possuir o direito de
participação nas pesquisas e exploração de petróleo, em território nacional,
para que empresas privadas possam entrar no negócio. Pelo regime de concessão,
as empresas adquirem o direito de exploração, por um determinado período -
normalmente de 25 a 35 anos – e se tornam proprietárias das reservas existentes
e de todas as que forem sendo descobertas. Assim, o Estado deixa de ter o
controle sobre o petróleo e sobre outras possíveis descobertas.
Na defesa da mudança, o governo argumenta que o
investimento privado aumentaria o ritmo de exploração, possibilitando, desse
modo, a redução do nível de endividamento da Petrobras. Para o governo, esta é
a saída para a recuperação do valor de mercado da empresa, estimado em R$ 96,5
bilhões; número insignificante, quando comparado à sua dívida de R$ 470
bilhões.
A discussão sobre a distribuição dos royalties terminou em 2013, com a sanção
da nova lei, pelo governo, de Dilma Rousseff. Com a nova lei, a União reduziu
seu direito, nos royalties, de 30% para 20%. Para os estados produtores
a queda na participação foi de 26,25% para 20% e os municípios produtores, que
recebiam 26,25%, passaram para 17%, com queda programada até chegar a 4% em
2020.
Com estas mudanças, o governo ampliou a
participação dos estados e dos municípios não produtores aos recursos dos royalties. Os estados não produtores,
que recebiam 7%, passaram a 20%, enquanto a participação dos municípios não
produtores saiu de 1,75% para 20%. Para os municípios afetados pela exploração
de petróleo, houve redução de 8,75% para 3%. A lei estabeleceu, ainda, a
criação de fundos especiais para o desenvolvimento de estados e municípios que
não produzem petróleo.
Os estados e municípios produtores sempre alegaram
possuir mais direitos do que os demais. Porém, se for levado em conta o fato de
que a Petrobrás foi construída com dinheiro federal, e de que toda a sua pesquisa
e desenvolvimento foram financiados com recursos do governo. E lembrando de que
na campanha “o petróleo é nosso”, o Brasil inteiro se mobilizou em busca de
soluções para o abastecimento do país, a constatação é de que todas as
conquistas do petróleo têm a participação e o sacrifício de todos os
brasileiros. Com a nova lei, de 2010,
foi corrigida a distorção que beneficiava os estados e municípios produtores em
prejuízo dos não produtores.
O governo Temer projeta que a mudança do regime, de
partilha para concessão, vai aumentar os investimentos no setor de petróleo e
favorecer o crescimento econômico do país, além de restabelecer o equilíbrio
financeiro da Petrobrás. Porém, o próprio governo, através de declarações do
presidente da estatal, Pedro Parente, tem procurado reduzir as expectativas em
torno do Pré-Sal. Parente tem lançado dúvidas sobre os números do projeto, mas,
enquanto isto o governo leva adiante o modelo de exploração pelo setor privado.
Antes de ser atingida pelas investigações da
Operação Lava Jato, em março de 2014, a Petrobrás executava dezenas de projetos,
chegando a investir R$ 84,1 bilhões em 2012. Nos seis anos de 2008 a 2013 a empresa
teve lucro de R$ 142 bilhões. A dívida atual, de R$ 470 bilhões, era de R$ 179
bilhões em 2010. E se, atualmente, o valor de mercado da empresa é de R$ 96,5
bilhões, em 2012, ele chegou a R$ 610 bilhões.
A mudança do regime de exploração, do petróleo, faz
parte da reorientação da política externa brasileira, adotada pelo governo
Temer, sob o comando do chanceler José Serra.
A política externa do governo, FHC, buscou integrar
o país; para isso procurou a inserção internacional do Brasil baseada no
respeito às leis e aos acordos internacionais, com agenda política e econômica
alinhada com os países desenvolvidos. Esta política foi seguida pelo governo
Lula, que buscou, também, a diversificação, se aliando aos países subdesenvolvidos.
Da política externa de Lula surgiu a Unasul (União de
Nações Sul-Americanas), um bloco que visa ao fortalecimento das relações comerciais,
culturais, políticas e sociais entre as doze nações da América do Sul –
Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai, Peru,
Suriname, Uruguai e Venezuela. Foi criado o G-20 (grupo que reúne as vinte
nações mais ricas do mundo); e, o Brasil consolidou uma aliança estratégica com
a China, que tem a segunda maior economia do mundo; é a que mais cresce; é o
país que menos deve e o que tem mais empréstimos a receber.
Simultaneamente, o Brasil ampliou as
suas relações com a Rússia, e estabeleceu, com o Irã, uma diplomacia conjunta,
em oposição a Israel, e, portanto, aos interesses americanos, na região do
Oriente Médio, que, aliás, concentra a maior parte do petróleo do mundo. A política
externa do governo Dilma, foi uma continuidade da diplomacia do governo Lula.
Porém, ainda na interinidade, o governo Temer mudou o voto brasileiro na
199ª Sessão da Unesco, realizada em abril, e decidiu não apoiar mais o Estado
da Palestina. Na Sessão, foram discutidos os direitos pelo patrimônio
cultural nos territórios palestinos ocupados por Israel. O documento, que
defende a soberania do Estado Palestino, foi aprovado por 33 votos a favor
(incluindo o do Brasil). Houve dezessete abstenções e duas ausências, sem
nenhum voto contrário. Além do Brasil, a
França também mudou sua decisão recentemente, ficando contrária ao texto, e a
favor de Israel, portanto, contrários ao Irã. Em seguida, o ministro das
relações exteriores, José Serra, reduziu a importância da Unasul, e para
completar, a Venezuela, o Equador e a Bolívia não reconheceram o governo de
Michel Temer.
A diretriz do governo principia o abandono dos
aliados históricos como a Venezuela, o Irã, a Rússia e a China, e o retorno à
aliança com os Estados Unidos, para o qual o Pré-Sal tem importância
estratégica.
A produção no Pré-Sal teve início, pela Petrobrás,
a 4.700 metros de profundidade, no campo de Jubarte – localizado na Bacia de
Campos, litoral sul do Estado do Espírito Santo - em setembro de 2008, sem a
participação de nenhuma outra empresa.
Um estudo
feito pelos professores Cleveland Jones e Hernani Chaves, do Instituto Nacional
de Óleo e Gás da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), indica a
existência de pelo menos 176 bilhões de barris de recursos não descobertos e
recuperáveis de petróleo e gás na área do Pré-Sal, em uma área de 800 quilômetros
de comprimento e 200 quilômetros de largura, que abrange os Estados do Espírito
Santo, do Rio de Janeiro e de São Paulo; mas, ainda segundo o estudo, este
número pode chegar a 204 bilhões de barris. Isto significou um salto: antes do
Pré-Sal, a Petrobrás possuía 16,8 bilhões de barris em suas jazidas conhecidas,
e aparecia na décima quinta posição, entre os vinte países com as maiores
reservas petrolíferas. Agora aparece em terceiro lugar, atrás, apenas, da
Venezuela, com 297,7 bilhões de barris, e da Arábia Saudita, com reservas de
265,9 bilhões.
|
Reservas
em bilhões de barris
|
|||
|
|
Mundo
|
1702,372
|
100%
|
|
1
|
Venezuela
|
297,7
|
17%
|
|
2
|
Arábia
Saudita
|
265,9
|
16%
|
|
3
|
Brasil-Pós
Pré-Sal
|
192,8
|
11%
|
|
4
|
Canadá
|
173,6
|
10%
|
|
5
|
Irã
|
157,3
|
9%
|
|
6
|
Iraque
|
143,1
|
8%
|
|
7
|
Kuwait
|
101,5
|
6%
|
|
8
|
Emirados
Árabes Unidos
|
97,8
|
6%
|
|
9
|
Rússia
|
60
|
4%
|
|
10
|
Líbia
|
48,1
|
3%
|
|
11
|
Nigéria
|
38,5
|
2%
|
|
12
|
Cazaquistão
|
30
|
2%
|
|
13
|
Estados
Unidos
|
19,1
|
1%
|
|
14
|
China
|
16,1
|
1%
|
|
15
|
Brasil-Antes do
Pré-Sal
|
16,8
|
1%
|
|
15
|
Catar
|
15,21
|
1%
|
|
16
|
México
|
12,49
|
1%
|
|
17
|
Argélia
|
12,26
|
1%
|
|
18
|
Noruega
|
8,5
|
0,5%
|
|
19
|
Azerbaijão
|
7
|
0,4%
|
|
20
|
Angola
|
5,412
|
0,3%
|
|
15
|
Brasil-Estimativas do
Pré-Sal
|
220,8
|
13%
|
As reservas brasileiras seriam suficientes para
abastecer o consumo mundial por mais de seis anos. As alegações de
superendividamento da Petrobrás; os argumentos em defesa da participação do
investimento por parte do setor privado e tampouco a ideia de que a corrupção
comprometeu seu desempenho; nada disso faz sentido quando são analisados os
números das reservas de petróleo descobertas pela empresa. As suas jazidas, estão
estimadas em no mínimo 192 bilhões de barris; nesta sexta-feira, sete de
outubro de 2016, o barril de petróleo foi cotado a U$ 49,90. Se multiplicarmos
estes dois números, teremos: U$
9.580.800.000.000,00 (nove trilhões, quinhentos e oitenta bilhões e oitocentos
milhões de dólares), ou mais de trinta trilhões de reais, em valores de hoje.
Quando
o presidente Michel Temer sancionar a lei, aprovada na última quarta-feira
(5/10), o governo assinará a transferência do controle de toda a riqueza do
Pré-Sal para empresas privadas estrangeiras. As questões que ficam são: quem
vai ganhar com esta mudança? Para onde serão destinados os recursos do petróleo?
Por que o Brasil está adotando um modelo de exploração que compromete as
gerações futuras? Se o governo enxerga, no petróleo, a solução para os
problemas do presente, quais serão os benefícios reais?
Para
refletir sobre estas questões, é importante lembrar de que, apenas dois países,
a Arábia Saudita e o Iraque, têm suas reservas de petróleo controladas pelos
Estados Unidos, e tanto em um, quanto no outro os recursos do petróleo está nas
mãos de poucos, aprofundando a desigualdade e comprometendo o futuro destas
nações.

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