quinta-feira, 24 de setembro de 2015

A financeirização da economia e a crise da Grécia



A dimensão da crise econômica internacional e a tensão que ela vem provocando têm colocado as principais lideranças mundiais em um labirinto. Sem enxergar uma luz no final do túnel, diante da falência da Grécia, os líderes europeus têm se apegado à tradicional ortodoxia - do “vale tudo” – para salvar a economia de mercado. As negociações que resultaram na assinatura do acordo que impõe medidas para o governo grego em troca da concessão de novos empréstimos, por parte dos credores europeus, aconteceram em tempo recorde, sem nenhuma garantia de viabilidade.
O documento assinado entre o governo grego e seus credores não configura exatamente um acordo, dado que os credores, conscientes da falta de alternativa para a Grécia, impuseram suas condições e não cederam em nenhum ponto. Ciente de que o fracasso do “acordo” seria o caos absoluto no país, o ex-primeiro-ministro, Alexis Tsípras, se viu obrigado a ceder à chantagem dos credores, principalmente dos alemães. 

Ao recorrer às antigas receitas para a crise do eurogrupo, os líderes europeus demonstram uma visão superficial da realidade. Encaram o drama grego como se estivessem na plateia e não como se fizessem parte do mesmo palco. O espectro de um mundo coordenado por um determinado grupo – que muitos gostam de chamar de “imperialistas” – vem ficando para trás, na medida em que os problemas exigem soluções diferentes. Mas os países do ocidente continuam negando esta transformação e preferem impor ideias e regras que só têm contribuído para o agravamento das crises.
A Grécia é, de longe, o país que tem a maior dívida em relação ao tamanho de sua economia, 171% do Produto Interno Bruto (PIB), mas não é o único que deve além da conta. A fila dos superendividados da União Europeia é seguida pela Itália com dívidas de 132,1%, Portugal com 130,2%, a Irlanda com 109,7%, Chipre com 107,5, a Bélgica, com 106,6 e a Espanha que deve 97,7% do PIB anual. Mas não para por aí. Considerando o limite de 60% fixado pelo Tratado de Maastricht, para o endividamento dos países da zona do euro, essa situação se torna ainda mais grave, porque mais seis países têm dívidas superiores a 60% do PIB – França, Áustria, Eslovênia, Alemanha, Países Baixos e Malta. E fora do euro, mas dentro da União Europeia, a lista dos grandes endividados ainda tem o Reino Unido, a Finlândia, a Croácia e a Hungria. Segundo a Eurostat, a dívida dos membros da UE gira em torno de € 9,7 trilhões, R$ 32,5 trilhões.

As dívidas dos 28 países que formam a UE estão, em média, em torno de 87%, portanto, 27% acima do limite fixado no Tratado de Maastricht. Mas o superendividamento é o efeito e não a causa do problema.  Quais seriam, então, as causas deste descontrole? O que permitiu que a situação chegasse a este ponto?
A dinâmica da economia internacional se constitui em uma rede, formada por economias nacionais, interligadas pelo intercâmbio de bens, serviços, capital, tecnologia e o trânsito de pessoas, formando um sistema semelhante a uma teia de aranha. Isto sugere um elevado grau de interdependência entre os países.
Ao contrário do que se tem tentado demonstrar, esta situação teve início há muito tempo. Este sistema começou a ser edificado através do programa de reconstrução, da infraestrutura, ao final da Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, em 1945, a Europa, como epicentro da Guerra, e a Ásia, como campo de batalha, estavam devastadas. Mas, antes disso, o então presidente dos Estados Unidos, Franklin Delano Roosevelt, já havia iniciado um movimento que desembocaria no programa de transferência de dinheiro americano para os países arrasados. Com esse objetivo, em 1944, foi realizada a Conferência de Bretton Woods.
Bretton Woods é o nome da cidadezinha americana, onde aconteceu o encontro, e que denomina o conjunto de normas que regeram as relações econômicas e financeiras internacionais, nos 25 anos seguintes à Guerra. Liderados pelos Estados Unidos, em julho de 1944, 730 delegados representando as 44 nações aliadas, se reuniram para criar um arranjo para a economia. Desse encontro, surgiram o Banco Mundial, com a finalidade de promover o crescimento e o desenvolvimento das nações, e o FMI, com o objetivo de garantir a estabilidade monetária internacional.
Mas, a maior transformação iniciada em Bretton Woods, foi a instituição do dólar, como padrão monetário mundial. Até então, os pagamentos internacionais eram regidos pelo padrão-ouro. Para impor a substituição do ouro pelo dólar, os Estados Unidos apresentaram uma regra de conversibilidade em que garantiam a troca de ouro por dólares, sempre que algum país excedesse as suas necessidades de acúmulo de moeda americana.
Com esse arranjo, foi possível transferir o dinheiro necessário à reconstrução da Europa, os chamados eurodólares. E pelo menos nas duas primeiras décadas este sistema funcionou de forma satisfatória, apesar da constante insatisfação da França, a qual não aceitara o dólar como moeda mundial.

Depois disso, em 1960, na cidade de Bagdá, os cinco principais produtores mundiais de petróleo - Arábia Saudita, Irã, Iraque, Kuwait e Venezuela - fundaram a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP. A organização nasceu com o objetivo de reivindicar maior participação do grupo na política internacional dos preços do petróleo, a fim de melhorar as receitas dos países exportadores e promover o desenvolvimento.
Mas, em 1970, os Estados Unidos e a Europa embargaram as exportações dos integrantes da OPEP, os quais reagiram com a redução do abastecimento mundial, acompanhada do aumento do preço do barril, o que provocou aumentos sucessivos no preço internacional do petróleo. A concentração do abastecimento sacudiu o mundo, no período de 1973 a 1979, por uma explosão de preços sem precedentes na história.
A crise provocou uma sangria de dólares para o grupo da OPEP – os denominados petrodólares - e traçou, de forma indelével, o caminho das décadas seguintes.
Por muito tempo, as cifras monumentais dos petrodólares ficaram aplicadas em bancos europeus, entre eles, muitos bancos norte-americanos, os quais já se encontravam abastecidos pelos eurodólares.
Diante de tanta oferta de dinheiro, em 1970, o governo da então primeira-ministra da Inglaterra, Margareth Thatcher, criou medidas de liberalização da entrada e saída de capital internacional em território inglês, e concedeu uma série de desregulamentações, aumentando a mobilidade financeira. Estava aí configurada uma nova forma de tratamento ao dinheiro internacional.
O exemplo inglês foi seguido pelos Estados Unidos em 1980, com Ronald Reagan, pelo chanceler Helmut Kolh da Alemanha em 1982, e por Schullter na Dinamarca em 1983, e daí se espraiando pelo mundo. Desde então, a sociedade econômica tem enfrentado a, difícil, tarefa de sobreviver às transformações das maneiras de se obter lucro. Antes disso, a economia se baseava no trabalho como geração de riqueza, em outras palavras, a riqueza era medida pelo que era concreto, pelo que existia. Mas o sistema financeiro criou meios de se jogar com o dinheiro e obter lucro sem produzir.

Este sistema econômico se firmou como “único”, depois do fracasso das experiências socialistas da Alemanha Oriental, 1989 e da antiga União Soviética, 1991. A economia do século XXI está sendo construída sobre as experiências vividas no século XX, mas com dificuldade para interpretar as lições que podem ter ficado. Os saltos tecnológicos trouxeram ganhos de qualidade e produtividade, o surgimento de novos atores econômicos, como a China, o Brasil, a Índia e a Rússia, alterou a oferta e a demanda mundiais por bens e serviços e agigantou a competição.
A formação de blocos econômicos como a UE, o Nafta, North American Free Trade Agreement, Apec, Associação de cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico, bem como agremiações menores, como o Mercosul, Mercado Comum do Sul, o Caricom, Caribbean Common Market, na região do Caribe e o Pacto Andino, dos países da Cordilheira dos Andes, ampliou o raio de movimentação das pessoas. Mas, a mais profunda mudança é caracterizada pela liberalização financeira entre as nações, impulsionada pelo avanço tecnológico, que ficou conhecido como globalização.
Três elementos resultaram disso: 1) a existência de um grupo, reduzido, de países no centro de comando do sistema, o G-7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo: Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá). Por sua importância militar, a Rússia participa, mudando a denominação para G-8; 2) processos padronizados de comércio e movimentação financeira entre os países; e 3) a existência de empresas transnacionais, capazes de influenciar governos e a ação política.
O conceito de globalização nasceu na década de 1980, mas entrou em moda nos anos 1990, como explicação para as mudanças tecnológicas do setor produtivo, mas que, na verdade, foi muito útil para convencer as massas a incorporarem a ideia.
Em sua essência, o termo globalização define o processo de integração econômica, social, cultural e política entre os países, facilitado pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e de transporte. O FMI reconheceu quatro elementos básicos da globalização: o comércio e as transações financeiras dele decorrentes, os movimentos de capital e os de investimento, a migração e o movimento de pessoas e por consequência, a difusão de conhecimento. Além disso, as questões ambientais, e as tragédias naturais de grande escala, também, estão ligadas à globalização. Estas transformações tiveram seu ponto de apoio na década de 1970, a qual assinalou a mudança das relações do Ocidente com o Oriente.
A visão leiga que os líderes mundiais têm, desta crise, não os deixa perceber a questão essencial por trás disto: que o mundo enfrenta o ápice de um processo de endividamento que começou a ser construído após a Segunda Guerra Mundial pelos Estados Unidos, com a arquitetura de um sistema financeiro que só funciona à base de dívidas. Este sistema se reflete no sistema de produção, e distribuição da riqueza, pelo poder que proporciona aos credores. Um exemplo atual disto é a queda, constante, da influência política dos Estados Unidos no âmbito internacional. Mesmo que haja outros fatores, os americanos começaram a perder prestígio a partir do momento em que a sua dívida de 101,53% do PIB, começou a aparecer mais que a sua riqueza. Aliás, a gigantesca dívida americana – de U$ 18,1 trilhões ou R$ 59 trilhões - prenuncia uma nova turbulência adiante.

O que está em discussão é a necessidade de reestruturação da relação entre o sistema produtivo e o financeiro, diante da quantidade de riqueza, fictícia, criada nas últimas décadas. Mas os líderes mundiais preferem ignorar isto, porque o fim desta desordem exige que cada um assuma a sua parte do prejuízo.
Hoje uma empresa surge do nada e em pouco tempo, suas ações passam a valer fortunas nas bolsas de valores, outras valem fortunas, parecem sólidas e repentinamente são reduzidas a pó.
Isto quer dizer que a riqueza passou a ser medida pelas expectativas existentes em relação ao futuro, e isto submeteu a sociedade econômica a um jogo arriscado.
Um relatório do McKinsey Global Institute (MGI) - ligado à consultoria Mackinsey, em fevereiro de 2015, estima que a soma das dívidas das 47 maiores economias do mundo chegam a U$ 199 trilhões. Enquanto isso o FMI estima o PIB mundial em U$ 59 trilhões. Simplificando, o PIB é a renda anual que a sociedade humana dispõe para se manter e para arcar com a amortização e com os juros desta dívida de U$ 199 trilhões.

A economia mundial está caminhando para uma desordem sistêmica, mas, como sempre acontece, os interesses particulares, dos países mais poderosos, estão prevalecendo nas rodadas de negociações. De um lado, os Estados Unidos não reconhecem a degradação de sua hegemonia; de outro, a Alemanha insiste em manter sua supremacia econômica na Europa; e no meio disso, o histórico acordo entre a Rússia e a China, no momento em que os Estados Unidos e a UE impuseram sanções a Moscou, devido a questão ucraniana, deixam claro que o mundo não pode mais ser governado como antes. Em outras palavras, estamos longe de uma solução. Mas a história mostra que, antes do caos, não existe solução política para a economia, porque a tendência dos líderes políticos é sempre a de acreditar que as coisas vão melhorar.
Neste contexto, o Brasil desenvolve e mantém suas próprias fragilidades, além de absorver aquelas provenientes do ambiente externo. Além disso, o país (governo) tem uma percepção retardada das ameaças econômicas, e pior: a nação vive um momento ímpar, em que os três poderes que formam a República – Governo, Congresso e o Supremo Tribunal Federal – não se entendem, ao contrário, estão numa disputa declarada de poder. Quando isto acontece é sinal de que estamos além de uma crise econômica, tampouco de uma crise política. Estamos diante de uma crise moral. Mas este artigo já está muito longo, e para tratar deste assunto eu preciso escrever outro.

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