Após muito bate-boca,
insultos e pouco diálogo, a comissão especial que elaborou o Estatuto da
Família, na Câmara dos deputados, aprovou, nesta quinta-feira, 24, o texto que
define a família. Foram 17 votos favoráveis e 5 contra. O centro da confusão é
a definição de família como a união entre gêneros diferentes. O que quer dizer
que as uniões conjugais entre gêneros iguais não serão reconhecidas pelo
Estado. O texto, aprovado, reconhece a família como a união entre homem e mulher por meio de casamento ou união estável,
ou o agregado composto por qualquer um dos pais junto com os filhos.
Pelo trâmite legal, o
projeto seguirá para votação no Senado, sem a necessidade da apreciação do
Plenário da Câmara, a não ser que algum deputado requeira a votação na Casa.
Mas, além disso, o
Estatuto trata de outras questões que envolvem a família. Seus pontos principais
se fundam na segurança, saúde e educação. O principal argumento usado pelo relator
do projeto, deputado Anderson Ferreira (PR-PE), é o de que “homem com homem ou
mulher com mulher não geram filhos”. Ora, o Estatuto trata de direitos de
pessoas que existem, que são vivas, que pagam impostos? Ou trata de como a raça
humana se reproduz? Se a comissão se baseou na possibilidade de reprodução para
elaborar o Estatuto, casais sem filhos serão considerados famílias?
Ademais, o deputado
Anderson Ferreira criticou o Poder Judiciário por reconhecer a união estável entre
pessoas do mesmo gênero, segundo ele, à revelia do Congresso. Já o deputado
Evandro Gussi (PV-SP), defendeu o projeto do Estatuto da Família exatamente
assim: "queremos que todas as pessoas homossexuais tenham seus direitos
garantidos, mas a Constituição disse que a família merece uma especial
proteção, porque é base (sic) da sociedade".
Uma nota publicada, no
portal da Câmara dos Deputados, informa: “...o
projeto do Estatuto propõe que a família receba assistência especializada para
o enfrentamento do problema da droga e do álcool. Também determina que o
governo preste apoio efetivo às adolescentes grávidas prematuramente, e que
seja dada prioridade na tramitação de processos judiciais e administrativos em
demandas que ponham em risco a preservação e a sobrevivência da entidade
familiar”. Neste caso, a pergunta é: e os dependentes de drogas – homens,
mulheres, crianças e adolescentes - que inundam as ruas, calçadas, marquises praças, viadutos, parques e jardins
do país?
É difícil de encontrar
algum valor prático neste Estatuto, em especial, porque todas as suas diretrizes
já estão asseguradas no Artigo Quinto da Constituição Federal. E, mais especial
ainda, porque o mesmo Artigo diz: “Todos são iguais perante a lei,
sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,
à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes...”. E
estabelece onze, mas os três principais, relacionados ao Estatuto da Família
são o I, o VIII e o X:
VIII - ninguém
será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção
filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a
todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;
X - são invioláveis a intimidade,
a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a
indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
Se, por um lado, o Estatuto não
parece trazer uma razão prática, por outro, ele é dotado de significado
simbólico ao institucionalizar a discriminação.
Ao questionar o Judiciário, o
deputado Anderson Ferreira não considerou o espírito da lei. Ao citar a
Constituição, o deputado Evandro Gussi deixou claro que ainda não leu o Artigo
Quinto. Mas uma coisa é certa: os dois agradaram aos seus eleitores religiosos,
os quais defendem que o casamento é uma obra e Deus, se esquecendo de que homem
e mulher não passam de dois animais que se farejam. Religiosos que pregam o
casamento pelo amor, mas que se separam quando o casamento não é consumado no
sexo.
E, para finalizar, recorrerei ao
discurso de Zaratustra, sobre o “casamento e os filhos”: És o vitorioso, o
vencedor de ti mesmo, o dominador dos sentidos, o senhor das tuas virtudes? Ou não
será que, em teu desejo, falam o animal e a necessidade?
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