quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Falência da Grécia deixa a Europa sem saída



A crise econômica mundial, que vem se desenrolando de forma, cada vez mais, acentuada na União Europeia-UE, põe os países da Zona do Euro diante da difícil tarefa de manter a moeda única. Para isto seria necessário enfrentar a realidade da falência grega a fim de evitar que a Grécia abandone o bloco econômico, o que significaria concessões por parte dos credores gregos, dentro dos limites possíveis para o país. Na ausência de um acordo, só restaria à Grécia abandonar o Euro e voltar a emitir a própria moeda, que poderia ser a Dracma, que circulava antes do Euro, ou até mesmo um novo dinheiro. Mas o ex-primeiro-ministro grego, Aléxis Tsípras, declarou, antes da reunião que definiu os termos do acordo, em Bruxelas, que não possuía um plano de ação para a saída do bloco europeu. Diante da pressão da Alemanha, interessada em proteger seus interesses, a única possibilidade foi a assinatura de um acordo irreal, que tende a agravar a situação grega ainda mais até o limite do colapso.
A insolvência da Grécia representa, de fato, o efeito de uma decisão errada. A crise que atormenta os governos da UE teve seu ponto de partida na criação da moeda única para o bloco. O uso de uma mesma moeda por mais de um país exige certas regras econômicas, as quais não podem ser quebradas no decurso do tempo. Dois destes preceitos dizem que os governos devem manter atenção especial com o equilíbrio orçamentário e o máximo cuidado com os níveis de endividamento.
A idealização, e adoção do Euro, como moeda única, não foi uma decisão técnica, mas uma estratégia política conduzida pelos governos da França e da Alemanha. Primeiro porque a França sempre reivindicou para Paris, o posto de capital financeira do mundo, pertencente a Nova Iorque  e, segundo porque a moeda alemã já circulava como a segunda do continente. Assim, a substituição da moeda anterior, o Marco, pelo Euro não representou grandes mudanças monetárias internas para a Alemanha, e o uso do modelo do Deutsche Bundesbank, o Banco Central alemão, na criação do Banco Central Europeu, impôs as regras da política monetária alemã para todos os países do bloco.
Já a França viu, na unificação monetária, a possibilidade de ampliação de sua influência sobre a Europa e, principalmente, sobre o controle de uma moeda, o Euro, que fizesse frente ao Dólar.

A ideia da moeda única nasceu na década de 1970, e teve nos economistas Fred Arditti, Neil Dowling, Wim Duisenberg, Robert Mundell, Tommaso Padoa-Schioppa e Robert Tollison, seus principais defensores. Mas foi pelo Tratado de Maastricht, assinado em 1992, pelos doze países da antiga Comunidade Econômica Europeia, que a ideia passou à realidade. Pelo Tratado, a Dinamarca e o Reino Unido escolheram permanecer com suas moedas em vez de aderir à união monetária.
Em 1 de janeiro de 1999 o euro foi introduzido no mercado financeiro mundial, em substituição à Unidade Monetária Europeia, como unidade de conta, com taxas de câmbio fixas para todos os países da União. Já a moeda física entrou em circulação mais tarde, em 1 de janeiro de 2002. O ingresso da Grécia no Tratado aconteceu em 2001.
Dos critérios estabelecidos pelo Tratado de Maastricht, para o ingresso e a permanência dos países dentro bloco, dois são importantes para explicar a tragédia grega dos dias atuais. O primeiro estabelece que os governos de cada país-membro devem manter orçamentos equilibrados, e que na ocorrência de déficits, os saldos não devem ultrapassar a casa dos 3% do produto interno bruto, PIB. O segundo diz respeito aos níveis de endividamento dos governos, que ficariam limitados a 60% do PIB.

Historicamente a Grécia e um país gastador, acostumado a viver com rombos orçamentários incomuns, que se transformaram em grandes dívidas nas décadas que antecederam o euro. Pouco antes da adesão, o saldo deficitário apresentado oficialmente pelo governo era de pouco mais de 15% do PIB. Para se enquadrar no limite de 3%, exigido pelo Tratado, o governo adotou uma série de medidas, que na prática, não passaram de maquiagem das contas: os cortes previstos para os gastos não foram feitos conforme o prometido, as receitas não corresponderam, dívidas pré-existentes foram escondidas das autoridades do euro e, para completar, incluiu na contabilidade do país, produtos e serviços dos quais o governo não arrecadava impostos, como a prostituição e o tráfico de drogas. Com esse arranjo, o país conseguiu a aceitação no bloco, o que aumentou a confiança dos seus parceiros econômicos, e por consequência favoreceu a obtenção de novos empréstimos. Assim, desde que adotou o euro, em 2001, o governo grego vem recorrendo ao crédito para financiar parte dos gastos públicos, sem buscar novos mecanismos de arrecadação, o que só fez crescer os compromissos do país com seus credores.
Segundo a Agência Oficial de Estatísticas da União Europeia, a Eurostat, hoje, a dívida grega representa 177% do PIB do país, ou mais de € 300 bilhões. A Itália, o segundo país mais endividado do continente, tem uma dívida em torno de 132% do PIB, enquanto a média da UE é de 87%.
Na medida em que o orçamento do governo foi ficando asfixiado pelas dívidas, as necessidades de financiamento foram aumentando e, por outro lado, foi diminuindo a capacidade de o governo participar da economia. Entre 1999 e 2007 o gasto público aumentou 50%, e nos anos que se seguiram, de 2008 a 2014, o PIB caiu 26%.
Diante do caos que se instalou a partir de 2008, a Grécia recorreu e obteve, do Fundo Monetário Internacional, FMI, e da União Europeia, o seu primeiro socorro financeiro em 2010. Naquele momento o empréstimo de € 110 bilhões (R$ 375 bilhões), não foi suficiente para honrar os compromissos que se revelaram bem superiores da ordem de € 240 bilhões (R$ 820 bilhões) com os credores.
Sem dinheiro, com orçamento negativo, arrecadação em queda - por causa da redução contínua da atividade econômica - e com prazos curtos entre os vencimentos das dívidas, o país vinha se sustentando numa ciranda financeira que se baseava na contração de novos empréstimos, para quitar os antigos, e assim, as amarras com os credores só aumentaram.

Hoje as dívidas da Grécia superam € 300 bilhões, cifra que um dos principais credores, o FMI, considera impagável. Mas do outro lado dos financiadores gregos, tem a Alemanha que não tem medido esforços para proteger os seus interesses. O acordo assinado pelo primeiro-ministro e aprovado, em seguida, pelo parlamento grego, foi redigido pelo presidente do banco central alemão. O documento impôs catorze ações para o governo da Grécia, em troca de um novo socorro, agora de € 85 bilhões (R$290 bilhões). Deste volume, € 7 bilhões (R$ 24 bilhões) já foram liberados.
Ao apelar para o parlamento aprovar o acordo assinado por ele, em Bruxelas, Alexis Tsípras, declarou não acreditar no acordo, mas que o assinou para evitar um desastre para o país. Tsípras deveria ter dito que assinou o acordo porque não sabia o que fazer.
Para o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis, "o que estamos vendo é a solidariedade europeia em ação", porém, mais da metade do valor acertado no acordo será destinada ao pagamento dos credores. Em outras palavras, a solidariedade consiste no credor renovar a dívida antiga por uma nova, e maior.

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